20.6.04





Goodbye

Acontece



Tem vezes que nada mais resta a dizer, e um poeta mais sábio que eu sugeriu que se tocasse um tango argentino. No entanto, neste caso, Lulu Santos dá conta do recado.


Apenas mais uma de Amor
Lulu Santos

Eu gosto tanto de você

Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E näo tem a menor obrigaçäo de acontecer

Eu acho tão bonito isso de ser abstrato, baby
A beleza é mesmo tão fugaz
É uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de convencer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer (eu digo vai doer)
O que eu ganho o que eu perco
Ninguém precisa saber

17.6.04






O Bambú e o Carvalho



Eis que sou o Bambú.

Eis que sou o Carvalho.

Cresço delgado e alto, e o vento me torna bailarino.

Cresço lento e profundo, e o vento me torna forte.

Eu danço e me curvo; o vento forte não me pode derrubar.

Tenho raízes fundas e tronco largo; o vento forte não me pode derrubar.

Minha touceira de hastes cria um ninho onde pequenos animais procuram abrigo.

Minha farta cabeleira de galhos cria um ninho onde o pequeno e o grande procuram abrigo.

Enquanto danço, admiro a força do Carvalho e isto é bom e belo.

Enquanto resisto, admiro a dança do Bambú e isto é bom e belo.

O Diverso é que cria a Beleza.

O mundo é como devia ser.

13.6.04





Greg Olsen

Contos de Fadas



- Tia borboleta, tia borboleta!

- Sim, crianças?

- Conta uma história?

- Conto sim. Todo mundo preparado?

- SIM!

- Pois muito bem:

"Era uma vez um conto de fadas às avessas. Desta vez, não era a princesa que ficava presa numa torre, mas sim um príncipe encantado que estava preso num labirinto. Durante um longo tempo ele esperou encontrar sozinho a saída de lá, mas em vão.

Um belo dia, uma princesa peregrina passou ao lado da grande muralha de pedra que cercava o labirinto, e escutou o lamento do príncipe, que chorava através de sua flauta. O som a fez parar e escutar. Logo, ela começou a cantar do lado de fora do labirinto, e foi o príncipe que se quedou a escutar. Enfim, começaram a fazer música juntos, mas a muralha de pedra encantada que o aprisionava reagiu, e a hera que a cobria criou enormes espinhos pontiagudos, e a princesa foi obrigada a se afastar.

Sentada debaixo de um grande carvalho, a princesa recostou no tronco centenário e pensou. E pensou, e pensou. Finalmente,erguendo a mão, arrancou três fios de seu cabelo vermelho, e com eles teceu o que parecia o corpo de um pássaro, sem asas. Tendo feito isto, a princesa pensou no cárcere frio que aprisionava aquele nobre príncipe, e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos. Ao cair, as duas lágrimas se transformaram em duas grandes plumas brancas. Estas ela espetou, uma de cada lado do boneco tecido com seus cabelos, nos lugares onde haveria asas em um pásaro.

Em seguida, a princesa pegou este curioso boneco em suas mãos, trouxe-o para bem perto de seu rosto e sussurrou-lhe palavras, baixinho. Pousando-o na grama, tirou de seu vestido um broche que enfeitava o vão entre seus seios, e com ele espetou seu dedo. Três gotas de sangue caíram sobre o boneco, que tornou-se um lindo pássaro vermelho de asas brancas e alçou vôo em direção ao labirinto.

O príncipe, que nada conseguia enxergar além da muralha de seu labirinto, achava que tinha tido um sonho, que apenas em sua imaginação escutara a voz de um anjo a acompanhar sua flauta. Deprimido, sentado na grama entre lindas flores que não percebia mais, o príncipe apoiava os braços sobre os joelhos flexionados, e descansava a cabeça sobre os braços. Quando o pássaro começou a cantar, numa voz que parecia um som mesclado de sua flauta e a voz que escutara, o príncipe quase não levantou a cabeça, tão convicto estava que era um sonho. Mas o cantar insistente do pássaro acabou por aguçar sua curiosidade, e ele levantou a cabeça. O pássaro começou a instruir o príncipe, com as seguintes palavras:

- Alteza, é chegada a hora da sua liberdade. A princesa que me criou o espera do lado de fora. Para que consiga sair daqui, é preciso que siga minhas instruções.

- Instruções?

- Sim, meu príncipe. Vou pousar em seu braço, e você vai ter de me matar com sua faca. Abra meu corpo e tire meu coração de dentro do peito, segure-o nas mãos. Ele vai se transformar num lindo anel de rubi. Ponha-o no dedo. Minhas asas se transformarão em duas plumas brancas, espete-as na sua boina. Meu corpo se transformará em um cordão mágico, segure-o forte entre as mãos quando ele começar a mexer.

Dito isto, o pássaro deu um rasante e pousou suavemente no braço do príncipe. O príncipe acariciou a cabeça do animal, hesitante de matar bicho tão lindo, mas com algumas palavras de incentivo do pássaro, acabou por pegar a faca e abrir o peito emplumado. Ao pousar o coraçãozinho do animal, que ainda batia, na palma de sua mão, apareceu o dito anel. O pássaro voltara a ser o boneco tecido de cabelos vermelhos, com duas plumas brancas espetadas como asas.

Quando o príncipe retirou as plumas e espetou-as em sua boina, o corpo do boneco, esquecido na grama, começou a se retorcer e desmanchar, e os três fios vermelhos começaram a crescer e engrossar, trançando-se e virando uma grossa corda que se movia em direção ao paredão de pedra. O príncipe lembrou do conselho do pássaro mágico e agarrou a corda com as duas mãos. Tornado leve pelas plumas e protegido dos galhos e espinhos pelo anel de rubi, o príncipe foi arrastado para cima e por sobre o muro, cavalgando aquele grosso cordame como se fosse uma serpente marinha.

Logo estava diante da princesa, o cordame mágico rapidamente diminuindo e transformando-se novamente em três fios de cabelo, que retornaram à cabeça da princesa. Esta o olhava."

- E cada um que invente o seu final da história - disse a Borboleta sorrindo.

- Ahhhhhhhhh!

- Sinto muito garotada. Cada um vai ter de imaginar o que aconteceu depois.

Alguns protestos, muita algazarra, as meninas defendendo o final feliz, os meninos imaginando os mais bizarros finais de filme de terror. Logo todos estavam correndo e brincando, a Borboleta e o conto já esquecidos. Todos menos uma: a mais pequenininha, que tinha ficado quieta e arregalada enquanto a Borboleta tecia a trama da sua história, subiu ao colo da Borboleta. Lá, pergutou baixinho:

- Tia Borboleta...

- Sim, pequena?

- Algum dia vou ser capaz de criar um pássaro com meus cabelos?

- Ah, lindinha, talvez. Mas é ainda muito cedo. Antes, você precisa aprender direitinho a ser muito feliz, para depois então começar a aprender a fazer o pássaro - para fazê-lo você precisa aprender duas coisas difícieis.

- Que coisas, Tia Borboleta?

- A primeira você já aprendeu, que eu vi enquanto contava meu conto, querida. A primeira é ter empatia profunda pelo outro. Chorar lágrimas sinceras pela dor alheia. Eu bem vi seus olhinhos molhados hoje - disse a Borboleta dando um beijinho no nariz da menina. Esta sorriu e perguntou:

- E a segunda?

- A segunda é ainda mais difícil, docinha. A segunda é aprender a escutar e entender a voz de seu próprio coração. Só quem é capaz de escutar todos os corações é capaz de fazer um pássaro como o da princesa da história. Agora vá viver, brincar, crescer, e um dia me conte o seu final para este conto!

Com mais um sorriso, a menina se juntou à algazarra soando na distância, e a Borboleta sorriu e fechou os olhos. Num instante, no lugar dela via-se um estranho pássaro vermelho, de asas brancas, com um penacho de plumas coloridas na testa que lembrava curiosamente uma borboleta. Este pássaro levantou vôo e...

9.6.04





Agradecimentos tardios



Queria agradecer ao meu amiguinho politizado de esquerda (afe! socorro, heheheh), irmãozinho flamenguista, garoto bacana como poucos, apesar de gostar de hip hop (socorro de novo!), pelas lindas mudanças feitas no meu blog.

Bruninho Trezena, obrigada mil milhões de vezes. Ficou lindão. Deu mais vontade de escrever. Isso não é pouco de se dizer...

Beijões de borboleta

8.6.04





Dorothy Chan

Aquilo que eu gostaria



Você, amado, na sua inocente confiança em mim, ofereceu para me dar um presente. Pediu-me, ó criança linda, que escolhesse. Nem percebeu os monstros que cutucou com seu olhinho brilhante.

Que sabe você deles, não é mesmo? Eu os mantenho enjaulados, fechados, lacrados no calabouço mais fundo que fui capaz de construir aqui dentro. Com a ajuda de Deus, lacrados eles ficarão, apesar de terem uivado como lobos famintos à sua doce menção de um presente.

O presente que gostaria de receber, você não pode me dar. Queria ter vinte anos, e manter a consciência que conquistei chegando até aqui. Queria poder andar de mãos dadas no shopping e me agarrar com você no cinema. Na saída, lanche do mac e caminhada lenta para casa, com direito a beijos em todos os sinais. Queria poder exibir para este mundo maldoso a pureza de nossos sentimentos, com a segurança que o escudo de nossa juventude nos protegeria.

Queria, como só querem os muito desesperados, ser sua princesa encantada. Mas, do jeito que as coisas são, respiro fundo e desisto de pedir antes de escutar o não. E me contento em ser sua fada-madrinha.

Pelo menos para isso me vale ter asas de borboleta.

7.6.04






A Torre de Pedra

Muitas pessoas têm medo de envelhecer – eu não tenho.
Tenho medo de endurecer o coração junto com as juntas de meu corpo.

Muitas pessoas têm medo da morte – eu não tenho.
Tenho medo de perder minha alma saciando os apetites de meu corpo.

Muitas pessoas têm medo da solidão – eu não tenho.
Tenho medo de me juntar às pessoas apenas por apelos de meu corpo.

Muitas pessoas têm medo da dor – eu não tenho.
Tenho medo de viciar-me na busca do prazer de meu corpo.

Porém...

Há uma torre branca construída no alto de uma colina,
cujas janelas todas olham o mar.
Dentro desta torre há uma pequena imagem do sol,
dentro da qual repousa a Luz Viva.
Eu entro nesta torre e meu coração
novamente é um coração de criança.
Sento-me sobre seu piso de pedra,
a alma voa e a morte não me pode tocar.
Olho em volta e todos meus irmãos ali estão comigo.
Sinto o perfume do incenso,
os sentidos usufruem de uma alegria maior.

Não há medo. Nenhum medo.
Só amor.

31.5.04



The Beauty Within

O Avesso do Reverso

Isto
Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



Se eu pudesse, poeta, respondia. Dizia: teu sentir fingido, este afastar-se do sentimento, é o avesso do que faço, e algumas vezes lamento. Sinto; ressinto; de tanto sentir, de tantas vezes sentir, destilo o sentimento em gotas; pingam as gotas, correm as gotas; alambique da alma.

A bebida resultante desta condensação de alma não é vinho, mas é inebriante. É bebida agridoce, do mel, do suor e das lágrimas. É fruto das noites de vigília e dos dias de angústia. Temperado com risada de criança imaginária e uma pitada de maravilha.

Não é fácil produzir tal beberagem. É preciso, além de fé e coragem, uma boa dose de esquecimento e uma raspinha de perdão. Ela só envelhece sem avinagrar se for colocada no meio dos sentimentos mais nobres e da alegria mais pura.

Lentamente, esse sangue rubro destilado enche taças, em mim e em outros. Quem terá a coragem de erguer e beber?

23.5.04





Jacob and the Angel

Luta de Vida ou Morte



Deus certa vez mandou um anjo testar Jacó, durante sua fuga. Ele estava fugindo da fúria do irmão Esaú, porque roubou a primogenitura deste, aquela que Esaú vendeu distraídamente por um prato de lentilhas. No meio da estrada o anjo esperava, e disse que Jacó dali não passava. Jacó disse que passava sim senhor.

Ficaram lutando um com o outro por toda a noite, num eterno empate. Nem Jacó dominava o anjo, nem o anjo dominava Jacó. Ao amanhecer, o anjo sumiu e Deus apareceu e falou com Jacó. E disse que, por ter resistido, Jacó agora se chamaria Israel, e sua descendência seria o povo santo de Deus.

Muitas vezes lutamos nas nossas longas noites escuras, enfrentando anjos, como fez Jacó, ou nossos demônios particulares. A minha própria batalha está longe de ser ganha, acho que sequer cheguei àquela parte mais escura da noite, que antecede o amanhecer. Mas persevero, porque geralmente a recompensa é grande.

Hoje tive um relance da luta de uma pessoa de quem gosto demais e que está paralizada em seu próprio embate. Mas, felizmente, posso dizer que parece que a escuridão clareou um bocadinho, e está menos escuro que estava antes. O anjo mau que aprisionou as suas emoções está dando visíveis sinais de cansaço. Cansaço que aparece como irritação, mas não se engane, bem querer, é irritação do anjo mau, e sinal de vitória próxima.

Os muros do labirinto estão com micro rachaduras, e já posso ver pequeninos furos na possante argamassa que antes era tão lisa e impenetrável.

Continuo vigiando e esperando pelo amanhecer.

22.5.04





Dancers

Vem dançar comigo



Há dias em que acordo com música por dentro. Hoje foi um deles. A vontade era de partir para um lugar onde pudesse ficar sozinha com o mar ou com a floresta, e dançar ao som da música que vinha do meu coração. Se minha vida tivesse sido outra, imagino que seria bom ter sido bailarina. Sinto em todo o corpo a ânsia do movimento, uma explosão prestes a acontecer. Na maior parte das vezes, no entanto, ela não acontece como dança, mas como canto ou como escrita. E como carícia.

Hoje eu lembro do teu afago, homem-surpreendente, homem-de-asas, e me dá vontade de dançar colada no teu corpo; de beijar sua boca com gosto de fumo; de sentir a indefinível segurança que uma mulher sente diante de um homem verdadeiramente másculo.

Conversar. Ouvir sua voz meio rouca, sentir seu olhar atento passeando pelo meu corpo e pela minha alma. Sentir suas mãos experientes segurar minhas ancas enquanto dançamos. Roçar meu dedo travesso no côncavo do seu peito onde as clavículas se unem ao pescoço, sentir os pêlos macios e a vibração do riso grave de quem sabe muito bem o que sinto por dentro.

Vem me sequestrar, me leva para um lugar onde possamos novamente ficar a sós. Sinto saudades suas e uma vontade louca de dançar com você.

19.5.04







Lágrimas de Borboleta



Não é fácil ver uma borboleta chorar. As borboletas são especialistas em transmutar sofrimento em beleza, e por isso raramente se vê uma delas dar margem ao pranto. Elas preferem aumentar a iridescência de suas asas, seu colorido, fazer malabarismos mais audaciosos em seu vôo.

Mas borboletas choram, sim. Uma lágrima de borboleta tem poderes, como também os têm os chifres de unicórnio. É uma lágrima que cura, um poderosíssimo prisma que ofusca o sofrimento alheio e o transforma em esperança. Pois o que faz uma borboleta chorar é justamente o sofrimento de uma pessoa boa.

Este ser humano que escreve aqui, que algumas pessoas gentilmente chamam de Borboleta, esta pessoa chora exatamente ao contrário das borboletas. Chora aos borbotões, por qualquer coisinha, chora em comercial do dia das mães. Mas, ao dar de cara com uma pessoa boa que sofre, as lágrimas secam. Há uma energia, uma ânsia em ajudar, que faz com que ela se esqueça de sofrer. Então, não tenho poderes como as borboletas e os unicórnios, tenho apenas a força do meu abraço. Por isso, meus braços estão sempre abertos, prontos para abraçar... como as asas dos anjos e das borboletas estão sempre prontas para o vôo.

Hoje deparei com duas pessoas que sofriam. Pessoas boas. Uma pessoa amiga e uma pessoa desconhecida. Um geograficamente longe de mim, a outra existencialmente afastada de mim. Meu amigo eu só pude abraçar em pensamento, e esta nova pessoa só pude abraçar com o comedimento profissional do ambiente de trabalho.

Mas sei que hoje as borboletas choraram