5.5.07

O Rio em Maio



O poeta pode gostar de Paris no outono, por seu amor estar por lá, mas certamente ele ficaria um tanto balançado na escolha de que cidade louvar se conhecesse o Rio de Janeiro em maio. É certo que as muitas mudanças climáticas - que os ambientalistas dizem sinalizar o perigoso descontrole da natureza causado pelo homem - causam uma falta de definição nas estações da cidade (que muitos dizer ter apenas duas: verão e inferno, risos).

Entretanto, há dias ainda em que o Rio se arruma para seduzir o olhar, como moça bonita se arruma para festa. Banha-se com a chuva de fim de tarde, limpa seu céu durante a madrugada para receber a lua cheia e acorda vestida com o verde brilhante das folhas recém-lavadas, coberta por um céu de um azul-claro faiscante, quase branco, envolta por uma luz dourada, cercada de mar. É bonita a moça, muito bonita; nestas horas a cidade até consegue esconder os maus-tratos que os habitantes insensíveis lhe inflingem.

Andando pela cidade nestes dias, sinto o coração leve e o espírito querendo alçar vôo para acompanhar as aves que pescam nas lagoas ou no mar. Dá vontade de sair andando por aí, passear pelo Centro, perambular pela Cinelândia, dar um pulo no MAM e pegar um ônibus até Copacabana, percorrer o calçadão vagarosamente até o Leblon. Dá energia, esta luz dourada do outono carioca, dá alegria e dá esperança.

E eu nem preciso dizer que as borboletas invadem a cidade, preciso? Afinal, as borboletas entendem de beleza, e como alguém me disse há pouco tempo, contemplar a beleza é bom.

Muito bom.

29.4.07

Porque as borboletas?



Eu tenho estado na Net faz quase oito anos. Durante parte deste tempo, fui apenas Sue. Há quase cinco anos, entretanto, uma pessoa maravilhosa, poeta talentoso, me deu de presente um poema de sua autoria, onde ele falava da borboleta que era como uma flor a tentar voltar para o galho de onde caíra. Este poema está na testeira da minha página de comentários.

Foi aí que cismei de pensar nas borboletas, neste símbolo de renascimento e transformação, como elas se transformam lentamente para fazer um breve vôo de beleza, se reproduzir e morrer, para que mais borboletas nasçam. Naquele dia decidi que as borboletas seriam parte da minha identidade. Eu agora sou, além de Sue, Borboleta.

Este é o lugar onde conto de onde vêm minhas Asas de Borboleta.

Esteja à vontade para explorar.

De fora para dentro, de dentro para fora



Por mais que se conheça todo o mundo, da Patagônia ao Alaska, do Panamá ao Japão, passando pela Europa, Ásia e Austrália, sempre parece que olhamos o mundo de fora como se por trás do nosso olhar houvesse uma parede escura. Nada daquilo que acontece dentro aparece quando olhamos o mundo fora de nós.

Quando olhamos para nosso interior, da mesma forma, escurece o ambiente que nos cerca, as pessoas e as coisas viram manchas nebulosas sem consistência. Naquele momento, tudo o que importa é todo um mundo interior, nossas necessidades internas, aquilo que desejamos para suprir o que necessitamos.

Uma pessoa especial me tem corrigido em uma série de coisas sérias e tolas que acho que todos fazemos sem pensar. Uma delas é desmontar o todo em partes, e fazer de conta que as partes têm uma independência entre si. Quando dizemos "meu pé", "minha mão", "minha cabeça", muitas vezes agimos mentalmente como se aquela parte de nós não fosse integralmente nossa, mas algo separado do nosso eu.

Fazemos a mesma coisa com "meu corpo" e "minha alma", como se um não permeasse o outro e não fossem as duas coisas uma coisa só. Criamos dicotomias, separações, barreiras mentais que no final só servem de obstáculos para que possamos entender o todo com mais clareza. Então, é como se picássemos uma imagem em pedaços e os separássemos num complexo número de pequenas peças que depois só de forma muito dolorosa conseguimos montar de volta. Fazemos, nós mesmos, enormes quebra-cabeças que depois nos parecem quase impossíveis de montar.

O eu não poderia estar separado do mundo que vive, da mesma forma que o mundo não é algo diferente do eu. Só podemos começar a funcionar de maneira harmoniosa e equilibrada se nos convencermos que dicotomias e separações são construções abstratas nossas, castelos de cartas que podem ser derrubados de uma vez com uma única frase. E na maior parte do tempo são.

Querido, conto com sua ajuda para colocar os castelos de cartas todos no chão. Quero, preciso e determinei para mim mesma que hei de liberar minha visão até a linha do horizonte. Não quero mais ilusões de qualquer tipo, até onde a vista alcançar.

Se é no deserto que temos de ir para vencer as tentações que querem nos derrubar, é no deserto que desejo ficar.

29.3.07

Veja na Íntegra, se tiver estômago

Casal adota crianças e uma é morta pelo pai 7 meses depois
Publicada em 29/03/2007 às 08h17m
Guilherme Russo, Diário de S.Paulo

SÃO PAULO - A Vara de Execuções Criminais de Mauá decretou a prisão temporária do ajudante geral Juraci Magalhães de Souza, de 43 anos. Ele confessou ter agredido a chutes sua filha adotiva, de 1 ano e 11 meses. A criança morreu no sábado por complicações decorrentes de um traumatismo craniano. A menina tinha hematomas, marcas de mordida e arranhões por todo o corpo, segundo boletins médicos. Juraci foi indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar), lesão corporal e maus-tratos, na Delegacia de Defesa da Mulher de Mauá e encaminhado para a Cadeia Pública de Santo André. (...)

A juíza disse que o casal não tinha antecedentes criminais e que 'os dois disseram que estavam felizes pela companhia das meninas'. Nesta quarta, a dona-de-casa Maria Aparecida Magalhães de Souza, 49, mulher do detido, resolveu contar à polícia que o marido tinha espancado a menina, a chutes, no início da tarde do dia 18. Na segunda, 19, a menina foi internada e morreu 5 dias depois. A irmã dela, de 3 anos, também tinha hematomas parecidos e foi encaminhada a um abrigo.




Cada vez que abro o jornal. Olho as notícias, a selvageria, a falta de respeito com TUDO e me sinto como se estivessem destruindo todos os meus valores, tudo que considero precioso, e nada posso fazer. A impotência está me corroendo por dentro, acabando com a minha alegria.

Porque, porque é que são as crianças que pagam?????

23.3.07

Buscando Conforto



A borboleta é o símbolo da ressurreição. Está sempre voando entre a Vida e a Morte, de cá para lá, de lá para cá, trazendo pó de espírito para iluminar as gotas de água do mar, levando a prata da lua para fazer os halos dos anjos.

Cá estou eu, buscando consolo da vida junto a meus mortos. Ah venham, venham depressa, eu preciso de vocês. Preciso da risada do meu pai, do cheiro de minha mãe. Preciso segurar nos braços meu irmãozinho Pedro Paulo, morto antes de eu nascer.

Preciso, preciso muito do bolo piquenique da Tia Elo, do pastel de carne da Tia Nel. Preciso do colo de minha avó, que me abençoava antes de eu dormir. Preciso do xic-xic-xic do terço de minha madrinha, que me acordava ainda de madrugada. Preciso da alegria de meu Tio Paulo, do abraço afetuoso do meu Avô Pedro.

Ah, onde estão vocês? Borboleta voa, voa depressa, traz todos, preciso senti-los junto de mim. Sobre mim, como um manto protegendo minha alma e meu coração cansados. Todos, não abro mão de nenhum, nenhum de meus queridos que já partiram, vem Alex, vem com eles, preciso também das suas covinhas aqui perto de mim.

Eu sinto vocês aqui, acima, em volta e dentro de mim, como um manto, como uma doce coberta... como um xale em torno dos meus ombros. Sim, um xale. Um xale diáfano, da cor do céu em madrugada de lua cheia, com o brilho suave de minúsculas lágrimas de saudade salpicadas sobre a névoa escura. Um xale, sim, tão apropriado...

Ahhhh... que bom. A Dama também está aqui.

15.3.07

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Quatro anos



Quatro anos são 1461 dias para fazer a boca sorrir com as lembranças doces. São 1461 noites para sentir o coração apertar de saudade. É tempo suficiente para que muita coisa aconteça, de bom e de ruim.

Quatro anos, entretanto, é pouco, Carneirão, muito pouco para me fazer esquecer o quanto foi bom ter recebido você na minha vida. Você, Alex Cabedo, foi a primeira pessoa que se afeiçoou a esta borboleta azul na web, e que fez questão de escrever e dizer isso. E depois declarar isto na cara daquela gente ruim. Diz-se por aí que só conhecemos os amigos na hora do aperto, e o destino quis que nossa amizade fosse comprovada logo de cara.

De longe, sem nos conhecermos pessoalmente, sem falarmos dos detalhes técnicos de nossas vidas - sem fotos, sem endereço, sem telefones, sem RG, sem CPF - fomos logo ao que interessava. Logo me afeiçoei à inteligência que brilhava nos seus textos, na esperteza das identidades secretas, no humor das críticas ferozes. Você logo sentiu vontade de provar do mel do afeto que ofereço àqueles que amo, parecia ser o que mais você precisava. Você buscava, meu amigo, não sei bem o que, e sempre esperei poder proporcionar a você o fim da busca e o descanso da chegada. Espero que sua partida tão precoce desta vida signifique que você tenha finalmente encontrado seu sei lá o quê. Torço por isto.

Sendo cavalheiro, não quis partir sem me deixar lindas lembranças, algumas delas lembranças vivas de você, como sua linda Carolina, que cresce uma pricesinha. Ou a querida Cristina, que nunca esquece de mim (nem eu dela, ainda vamos nos encontrar). Pessoas especiais, você as deu de presente para mim, Alex, e eu agradeço. Espero ter podido retribuir, pois peço sempre a meus pais que dêem uma checada, só para ver se está tudo bem contigo. Conhecendo a minha mãe, ela já deve ter adotado você!

Você deixou também impresso no meu coração a risada que eu nunca escutei, mas que suspeito em seus textos e nas fotos que só recebi depois que você já tinha partido. Achei isso tão apropriado, Alex, pois tendo sido você o homem bonito que foi, eu hoje posso dizer tranquila: "pouco me impoortava sua aparência". Hoje eu posso dizer que o que me interessava era seu espírito e seu coração, e estes permanecem.

Alex, não te perdi, nunca, porque você está aqui em mim, nas minhas lembranças, nas minhas orações, nas gargalhadas que dou nas ocasionais visitas ao Convento dos Chapeletos... você é parte de mim, e busco encontrar você quando for minha hora de partir. Aí, finalmente vamos velejar juntos.

Eu sempre busco uma imagem bonita que eu possa postar aqui, neste seu aniversário de vida eterna, e desta vez fiquei mais satisfeita que nos outros anos: a borboleta e o amor, meu amigo, a borboleta e o amor.

16 mar 2003 / 16 mar 2007 - quatro anos sem Alex

Feliz aniversário.

4.3.07

O mundo gira...

E mais uma vez cá estamos neste mês de março, que acumula suas dores, suas perdas, suas saudades àquelas que ainda estou digerindo, vindas do mês de janeiro. Nesta ocasião em que sou confrontada com tudo aquilo que me foi tirado, que me falta, torna-se necessário olhar com cuidado, ter à mão tudo que possuo ainda.

Ao longo dos cinco anos incompletos de existência deste meu cantinho na net muita coisa aconteceu... fiz parte de um grupo informal de blogueiros bastante especiais que, mesmo espalhados pelo mundo, juntos se negaram a ceder ao veneno travestido de religiosidade. Fui acusada de tanta coisa, de ter um blog de "menininha", com conteúdo pouco "literário". Fui chamada de muitos nomes, doces e ofensivos, ao mesmo tempo "minha borboleta de asas azuis" e "borboleta retardada".

Pessoas passaram pela minha vida e pelo meu coração. Algumas ficaram, outras partiram. Às que ficaram devoto meu mais profundo afeto; às que partiram - seja pelos braços inclementes da Morte, seja pelos movimentos inexoráveis da Vida - manifesto gratidão sincera por tudo aquilo de bom que deixaram comigo ao partir.

Entretanto, a morte recente de meu pai se transformou em um forte foco de luz que me obrigou a olhar tudo isto, parar e refletir. Afinal de contas para que, Pai Eterno, em nome de QUE escrevo neste local ainda, depois de tanto? Porque não deixar o Asa de Borboleta descansar em paz na Internet, como uma princesa encantada em sono profundo?

A explicação existe, mas é um pouco extensa. Quem já leu meus posts antigos sobre minha família sabe o que minha mãe - que já não está neste mundo há quase 21 anos - significou para mim na costrução da pessoa que sou. Já falei do imenso coração de D. Maria Helena, de seu sorriso iluminado, daquele abraço acolhedor que sempre buscava enlaçar o mundo inteiro. De meu pai falei menos, não por falta do que falar, mas por ainda estar construindo com ele um relacionamento, e por que ainda me perguntava o que dizer exatamente.

Agora esta dúvida não existe mais. Posso dizer, depois de muita meditação, que meu pai foi um homem de coração tão grande quanto o de minha mãe, talvez maior. Por força das diferentes situações de vida, dos caminhos trilhados, do papel social e moral que ele exercia como Pai e Provedor, seu coração teve de ser escondido e abrigado por trás de peito forte. Este peito aparou, ao longo de 76 anos, pancadas brutais, muitas vezes para impedir que estas pancadas atingissem sua família. Enquanto minha mãe era viva, ele buscava alívio em seus braços. Depois que ela partiu, ele se permitiu apenas a dignidade do silêncio.

Meu pai era um homem passional com o que acreditava, impaciente com a falta própria e alheia, quando percebia que podia-se ter feito melhor. Ele me ensinou que uma pessoa só pode manter a cabeça erguida sobre os ombros se agir de acordo com seu código pessoal de honra, sem nunca comprometer este código para agradar a outrem. Um amigo que jamais conheceu meu pai, numa conversa comigo, definiu este tipo de comportamento como sendo a atitude do "guerreiro impecável".

Pois meu pai tentou toda sua vida ser este Guerreiro Impecável, da mesma forma que minha mãe buscava ser a Mãe Amorosa. Apesar dos tropeços a que todo ser humano está fadado, por esta nossa natureza dual e imperfeita, agora que meus pais se foram posso encher o peito de orgulho e amor, dizendo a vocês com segurança e sem hesitação que ambos foram bem sucedidos em suas aspirações.

Então, é por isso que permaneço aqui, porque sou filha de meus pais. Defendo o que acredito, e eu acredito na Beleza, acredito na Poesia do dia-a-dia, acredito na Gentileza, acredito no Amor. Não é literatura que busco fazer aqui, apesar de saber que alguns posts bem podem ser considerados "literários". Eu busco aqui deixar sinais, pequenos e grandes da vida que desejo para mim e para todos que de mim desejem se aproximar.

O Asa é, portanto, um farol. O que espero deste farol é que ele me atraia muitas Borboletas Azuis, muitos Poetas do Amor e da Dor, muitos Cavaleiros de La Mancha, muitos Guerreiros Impecáveis, muita Mães Amorosas. Quero à minha volta pessoas que - como meu pai, como minha mãe - passem inteiros por este mundo, sem fazer parcerias com os valores dúbios que encontram pelo caminho. Gente diferente de mim, se for o caso, mas que nunca admita que o Mundo as force a ser o que não são. Por isso e para isso o Asa continua.

Falando ainda de meu pai, há uma canção famosa, de que ele muito gostava, que eu tenho escutado frequentemente. Esta música de certa forma o define, foi esta música que me ajudou a parar de chorar, a parar de tentar manter meu pai neste mundo e deixá-lo partir e seguir seu caminho. Esta música também me ajudou a escrever este longo post, e agora a compartilho com vocês. Senhoras e senhores, o grande Frank Sinatra:

My Way



And now the end is near
And so I face the final curtain
My friends, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain.

I've lived a life that's full
I travelled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way.

Regrets, I've had a few,
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exception.

I planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way.

Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way.

I've loved,
I've laughed and cried,
I've had my fill, my share of losing
And now, as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say not in a shy way
Oh no, oh no not me
I did it my way.

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way.

22.2.07

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Que mais?



Que se pode fazer quando a vida mostra com crueza que não há como escapar da dor? Vagarosa e lentamente transformar a dor em beleza. O que fazer quando o amor se apresenta envolto em uma névoa de tristeza? Cuidadosa e calmamente separar do sentimento o amargor.

Ela sabia. Quando nada mais resta a fazer a não ser colar de volta os pedaços, nada melhor que escutar a voz daqueles que conseguem transmutar sofrimento em música. Com um sorriso banhado de lágrimas, ela estendeu a mão e o convidou para dançar. Com o olhar marejado e o coração trêmulo de medo, ele aceitou.

Só uma música poderia ser a canção dos dois amantes feridos…

You’ve Got To Learn (Il Faut Savoir) – Charles Aznavour

You've got to learn to show a happy face
Although you're full of misery
You mustn't show a trace of sadness
And never look for sympathy

You've got to learn, although it's very hard
The way of pocketing your pride
And sometimes face humiliation
While you are burning up inside

Facing reality is awful hard to do
When it seems happiness is gone
You've got to learn to hide your tears
And tell your heart life must go on

You've got to learn to leave the table
When Love is no longer being served
Just show them all that you are able
To leave without saying a word

You've got to learn to hide your sorrow
And go on living as before
What good is thinking of tomorrow
Who knows what it may have in store?

You've got to learn to be much stronger
At times your head should rule your heart
You've got to learn, from hard experience
And listen to advice and sometimes pay the price

But I won't learn to live -
With a broken heart

10.2.07

Eu me lembro...



Uma certa vez, na longínqua década de 70, minha mãe me advertiu, escondendo um sorriso, ao ouvir meu comentário sobre como Tarcísio Meira era lindo: “Psiu, filha, não fala isto não, eu também acho, mas seu pai morre de ciúmes do Tarcísio Meira...”.

Em 2006, numa rara oportunidade em que assistia à novela das oito com minha família, tive a chance de provocar meu pai com a coisa do ciúme; ele respondeu com outro sorriso meio escondido: “Ora, é claro que não vou admitir que se fale que outro homem é bonito na minha casa, imagina!”.

Em muitos finais de semana, também na longínqua década de 70, meus pais namoravam num exercício de gastronomia afetiva que sempre me enterneceu... Eles colocavam suas músicas no som da sala – canções que iam de Maria Creusa e Roberto Carlos até cantores diversos da Motown, passando necessariamente por Frank Sinatra, Charles Aznavour e Elvis – e cada um preparava um prato do almoço, com seu copo de cerveja à mão, que bebericavam e que provavam um nos lábios do outro, nas bitoquinhas que trocavam quando achavam que não estávamos olhando. Nestes dias, o almoço sempre saía mais tarde, mas mais gostoso.

Minha mãe era constantemente pinicada pelas amigas, devido ao costume que ela tinha de se referir a meu pai como “meu marido lindo”. Em vez de ficar aborrecida com as piadas das amigas, ela dava de ombros casualmente e dizia que “ele era lindo mesmo...”.

Meu pai era um homem das antigas, sempre exigiu decoro e boas maneiras de nós, sempre reforçou os valores de família e de comportamento cristão, mas nunca foi maldoso com ninguém, nem preconceituoso. Ele me contava das peripécias de solteiro, quando passeava com seu irmão mais velho pelos spots noturnos mais... eh... alternativos de Porto Alegre. Ele contava que, recém-casado, passeava pela Rua da Praia com minha mãe quando encontrou um destes velhos amigos, um negão imenso e de aparência assustadora que era leão de chácara de uma casa de má reputação. O negão o saudou carinhosamente com um “Oi, Betinho”, para susto de minha mãe. Papai se divertia com o susto da noivinha inexperiente, mesmo muitos anos depois da morte dela.

No final de sua vida, depois de vir morar com as filhas, meu pai continuou a dar mostras de ser uma pessoa acolhedora com todos que freqüentavam nossa casa, apesar de sua formação tradicional. Conheceu muitos amigos nossos, e ficou especialmente próximo de um que tinha um namorado firme. Os dois rapazes vinham visitar-nos regularmente, quase sempre juntos, mas quando este meu amigo chegava à nossa casa desacompanhado, papai perguntava com uma carinha marota onde estava “seu fiel escudeiro”, e dava uma piscadinha no final.

Minha mãe era uma pessoa tão carinhosa, distribuía afeto e cuidado com tanta generosidade, que nos colocava em situações inusitadas. Ela faleceu na madrugada de 13 para 14 de maio de 1986, o que fez com que meu pai voltasse para casa durante a noite e não permanecer com ela no hospital até de manhã, como estava sendo o costume. Cedinho, quando levantamos, antes de meu pai descer as escadas para tomarmos o café, encontrei a equipe de taifeiros da casa oficial que morávamos toda perfilada, e o copeiro-chefe, Seu Everaldo, perguntou, em tom cauteloso: “Sue, como está Dona Maria Helena?” Quando eu respondi que agora ela estava bem, nos braços da Virgem Maria, toda a equipe – composta de homens barbudos, maduros, pais de família – começou a chorar copiosamente, o que tornou necessário que eu e minha irmã adolescente ficássemos algum tempo a consolar todos eles. A cena mais tocante foi ver o cozinheiro – um tipo grandalhão que era apelidado de “vaqueirão” e que usava como multiprocessador uma peixeira imensa – chorando, inconsolável, abraçado com o filtro. Muito mais gente que apenas eu e meus irmãos ficou órfã naquele dia...

Meu pai era um chefe rigoroso, da mesma forma que era um pai rigoroso. Exigia muito de todos nós. Entretanto, nos dois lados de sua vida, ele nunca pediu nada que não estivesse preparado para dar em troca, e nunca pedia que fizéssemos algo que ele também não fizesse. Era justo, carinhoso, e conquistava a lealdade dos filhos e dos subordinados igualmente. Igualmente estava preparado para lutar por ambos.

Quando morreu, deixou um legado de respeito por onde passou, e fiquei feliz de escutar de um ex-subordinado seu de muitos anos atrás que ele era “uma referência” até hoje. Realmente, nunca vi meu pai cometer uma injustiça com subordinados, e toda vez que discutimos era apenas porque ele não conseguia entender com muita clareza esta mistura de doçura saturnina que eu sou.

Tive pais assim: amorosos, rigorosos, alegres, felizes, amigos um do outro e de nós, severos na cobrança da retidão de comportamento, rápidos em ajudar a quem quer que pedisse sua ajuda para uma causa justa. Eles não estão mais aqui, presentes em corpo. Estão presentes, no entanto, em cada pensamento meu, em cada objeto de minha casa, em cada história relembrada.

Meu pai, minha mãe, não se preocupem. Eu lembro. Eu nunca vou me esquecer.