16.3.06

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Águas de Março



Mais uma vez, nossa amiga Cristina me acorda com uma linda mensagem. E eu, na correria em que minha vida se transformou, paro um instante para pensar em nossa amizade e sorrir.

Três anos... três anos desde que você partiu no seu lindo veleiro de luz, buscando aventuras das quais eu não posso tomar parte, buscando um caminho que ainda não posso trilhar. Um dia, Alex, um dia, vou planar ao lado do seu veleiro com iridescentes asas de borboleta. Quem sabe as aventuras que viveremos então!

Agora, você veleja só - ou com os amigos que já deve ter feito neste mar infinito - enquanto aqui tudo é doce saudade.

Beijo muito grande, amigo querido.

21.2.06

Image hosting by Photobucket



Eles vieram a SP, como tinham estado no Rio. Nas duas vezes eu não fui, por motivos parecidos. Queria que o conjunto tivesse aquela visceralidade inocente dos primeiros anos, queria que a coisa toda fosse mais primitiva e menos "zooropa". Não queria ver o Bono saltitando vestido de terno prateado. Não queria participar da "índústria do showbusiness".

Parece que o tempo passou e a crise de adolescência da banda também. Eu pude ver pela TV uma banda que me emocionou pela declarada alegria de estar ali, pela falta de vontade de ir embora. E, na hora que eles foram realmente embora, o gesto singelo de colocar o terço sobre o pedestal do microfone e saudar o Senhor me fez chorar.

Katilce podia estar muito contente, mas duvido que estivesse mais FELIZ que eu enquanto a multidão, sem saber, louvava a Deus em altos brados, e toda aquela vozeria subia aos céus inocente, vital e forte, massas de vozes em coro pedindo a Jesus libertação.

Que os anjos digam amém.

40

I waited patiently for the Lord.
He inclined and heard my cry.
He brought me up out of the pit
Out of the miry clay.

I will sing, sing a new song.
I will sing, sing a new song.
How long to sing this song?
How long to sing this song?
How long, how long, how long
How long to sing this song?

You set my feet upon a rock
And made my footsteps firm.
Many will see, many will see and hear.

I will sing, sing a new song.
I will sing, sing a new song
I will sing, sing a new song.
I will sing, sing a new song

How long to sing this song?
How long to sing this song?
How long to sing this song?
How long to sing this song?

19.2.06

Tem coisas que a gente sente fundo, de um jeito meio desordenado, mas mesmo assim precisa dizer... mas descobre que, pombas, já disseram antes de nós! Quando eu passo por algo assim, geralmente posto a idéia original aqui, com um pequeno comentário meu.

É isso que eu tenho a dizer: estou tentando, que é só o que posso fazer; a droga é que, por mais que a gente tente, às vezes a gente falha. Aí se respira fundo e tenta outra coisa.

A vida é isso mesmo - uma porção de coisas que a gente tentou, conquistou ou falhou.

Valeu, Paula e George


Eu Tou Tentando
Composição: George Israel / Paula Toller

Eu tou tentando largar o cigarro
Eu tou tentando remar meu barco
Eu to tentando armar um barraco
Eu to tentando não cair no buraco

Eu to tentando tirar o atraso
Eu to tentando te dar um abraço
Eu to penando pra driblar o fracasso
Eu to brigando pra enfrentar o cagaço

Eu to tentando ser brasileiro
Eu to tentando saber o q é isso
Eu to tentando ficar com deus
Eu to tentando que ele fique comigo

Eu to fincando meus pés no chão
Eu to tentando ganhar um milhão
Eu to tentando ter mais culhão
Eu to treinando pra ser campeão

Eu to tentando ser feliz
Eu to tentando te fazer feliz

Eu to tentando entrar em forma
Eu to tentando enganar a morte
Eu to tentando ser atuante
Eu to tentando ser boa amante

Eu to tentando criar meu filho
Eu to tentando fazer meu filme
Eu to chutando pra marcar um gol
Eu to vivendo de rock'n roll

15.2.06

Eles pareciam confortáveis um com o outro, depois de tantos anos juntos. Ela tinha a sensação que ele sempre tinha estado ali, que sempre estaria, que o relacionamento dos dois era um mar cálido e manso, praticamente sem ondas. Um dia, ele a surpreendeu:

- Estou cansado.

- Cansado? De que?

- Sei lá, desanimado.

- Desanimado a respeito de que?

- Sei lá.

- Mas qual é o problema? Sei que estamos passando por momentos difíceis, mas nada tão difícil assim... a gente é feliz, não é?

- Você é feliz. Eu nunca fui feliz na minha vida.

Ela podia escutar o sibilar do vento enquanto o coração dela caía no precipício, e o aviso permitiu que ela conseguisse esconder com habilidade a dor intensa que sentiu quando ele se espatifou no chão. Milhões de pedacinhos rubros que ela ia ter de catar, um por um, e tentar juntar de novo. Mas agora não. Agora ela precisava conseguir sair do torpor que uma frase tão simples a fizera sentir.

Nunca foi feliz? Nunca? Tudo mentira, tudo ilusão, os risos, as brincadeiras, os jogos, o companheirismo, nada disso fora capaz por um só momento de fazê-lo sentir que estava pleno, completo, nem por um instante? Se isto era verdade, e ela sequer percebeu, com que é mesmo que ela se relacionara estes anos todos? De repente, o mar tranquilo e calmo virou um buraco negro. Tudo que a fazia sentir que era especial na vida dele sumira sem deixar vestígios.

Ah, a dúvida, a dúvida Otheliana, feroz, que insandece, que distorce a realidade e deixa uma pessoa que via tudo claramente tateando às cegas. Se isto era mentira, o que mais era mentira? Tudo era mentira? O desejo que ele sentia por ela era mentira também? Quando ele lhe dizia que era bonita, isto também era uma mentira gentil? Não poderia ser TUDO mentira, seria loucura que ele permanecesse a seu lado estes longos anos, não poderiam ter passado juntos tudo o que passaram, e vencido, se fosse tudo mentira. Mas agora, o fato novo sacudiu as estruturas de todos os fatos antigos, e a fez duvidar. Na falta de certeza do que duvidar, duvidava de tudo.

Ela morria por dentro e ele, ensimesmado, sequer percebia. E isto fazia ela pensar se algum dia se enxergaram, de verdade, um ao outro. O que os mantia juntos?

Verdade? Mentira?

15.1.06

Começando 2006

Pois é... e o Natal passou voando, e também o Ano Novo. Fui surpreendida pelo término do tratamento de quimioterapia do meu pai (agora a longa espera, a expectativa), o aniversário dele, o meu... tudo isto passou num piscar de olhos. Cá estava eu, tentando decidir o que dizer a vocês desta sensação de que não há tempo suficiente para fazer tudo o que eu queria, tudo o que eu devia, tudo o que sou capaz, e descubro na gostosa releitura que Fernando Sabino já falou por mim. Aí, aproveito a carona do mineiro que faz tanta falta, e deixo o recado dele aqui.

Aproveitanto para recomendar com muita ênfase que vocês leiam as crônicas do livro "Deixa o Alfredo Falar!" Eu? Eu não só deixo como gosto muito, né Alfredo? Um beijo enorme de agradecimento pelo delicado telefonema de aniversário que me fez tão feliz!

Com vocês, Fernando Sabino!


"Ano Novo

A ser verdade o que afirmou Jules Renard, o homem começa realmente a envelhecer no dia em que exclama pela primeira vez: nunca me senti tão jovem como hoje. Pois mais um ano se passou, e aqui me vejo desmentindo o pessimismo do escritor francês, ao concluir que nunca me senti tão velho como hoje. E nem por isso fico mais jovem.

Ultimamente têm passado muitos anos - reconheceu outro grande escritor, desta vez Braga, ao que eu acrescentaria: e cada um mais depressa que o outro.

Este último, por exemplo, não durou mais que alguns dias e pronto, lá se foi. Nem tive tempo de fazer um exame de consciência sobre o que ele foi ou deixou de ser para mim, e já o novo ano segue em marcha batida para o seu termo. Mas recolho no próprio Jules Renard alguns trechos de exame semelhante que ele fez em 1895, e que eu poderia endossar sem nenhum esforço:

'Saído pouco: é preciso ver os outros, para colocá-los no lugar que merecem. Desprezado muito o jornalismo, os pequenos aborrecimentos, os azares da sorte. Lido pouca literatura grega e latina. Pouca esgrima e bicicleta: praticar até enfarar. O trabalho intelectual parecerá, então, uma espécie de salvação num convento onde se pode morrer.'

(...)

'Amado muito as crianças, posando de bom pai, ostentando muito a indiferença de meu coração relativamente à minha família. Muito enternecimento em relação aos pobres, a quem não dou nada com a desculpa de que nunca se sabe.'

'Não passo de um miserável, sei disso. Não sou orgulhoso mais. Sei disso, e continuarei.'

'E bato no peito, e, ao fim digo a mim mesmo: "Entre!" e me recebo muito bem, já perdoado.'

Eis aí: entre minhas faltas, conto também esta - a de me dispensar de enumerá-las, usando como pretexto uma citação literária. E no entanto, cada vez mais cansado da literatura. Certa tendência a escrever sem pensar - as idéias, mal nascidas e nem ainda formuladas, já sendo jogadas no papel. Certas palavras, melhor fora não dizê-las. Encontros a que não compareci. Aquele telefonema que eu devia ter dado, aquela pergunta que ficou sem resposta, aquele gesto brusco. Cartas que deixei de escrever. Às vezes, bastaria um sorriso, um aperto de mão, uma palavra... Aquele silêncio, em meio às palavras.

Porque não me retirei logo naquela noite? Que fiquei esperando? antes não tivesse ouvido. Às vezes é melhor esquecer. Aprender a esquecer. As lembranças também respiram, vivem, crescem e nos devoram.

Novos encontros. Outros que se foram - um que morreu, um que casou, um que simplesmente não conheço mais. Que é que ele quis dizer com aquilo? Esse menino como cresceu! Não havia aquele edifício ali. Gente nova que veio não se sabe de onde, fazer não se sabe o quê. E a leitura desse livro para sempre interrompida. O livro que não escrevi. Saber alemão, ler Goethe no original! Ao dentista tenho ido semanalmente.

Viajado por aí, pretextos fúteis, o regresso sempre o mesmo. Frases. Soube que você andou fora... Longe de mim tal idéia. Mas não tem dúvida alguma. Se você soubesse... Pois então nem se fala mais nisso. Não me leve a mal, por favor. O prazer é todo meu. Tempo de começar. Saber viver. Tirar do nada. Ver. Mostrar. Resolver. Agora ou nunca. Antes que seja tarde. Esquecer e dormir. Ano novo, vida nova: planos recompor, continuar, insistir, recomeçar.

Renascer."

20.12.05

I believe I can fly

Tenho estado ausente. Não ausente em espírito, simplesmente ocupada demais para sentar e escrever aqui algo que faça sentido escrever. Nunca fui de escrever no blog para cumprir agenda. Quando não tenho algo a dizer, simplesmente me calo, e meus leitores - os que ainda têm paciência de vir aqui espiar :) - sabem que têm três anos de histórias para reler e relembrar. Assunto é que não falta!

Hoje, no entanto, tive vontade de passar aqui para dizer que está tudo bem. O tratamento de radioterapia de meu pai já se encerrou, o de quimio está na reta final. Ele se recupera lentamente, tanto do tratamento (sofrido, tudo isso... tonteiras, quedas, febre, falta de apetite, mau humor...) quanto, parece, do câncer. Estamos otimistas. Não está tudo bem, entretanto, porque há a possibilidade concreta de uma sobrevida longa e tranquila para ele; está tudo bem porque eu achei dentro de mim um centro de serenidade que nunca havia descoberto antes. Isto significa que, o que quer que aconteça, estará sempre tudo bem.

Esta fé na minha serenidade interior, esta certeza na minha capacidade de lidar com o que a vida me apresentar, é uma conquista importante, e algo que gostaria de dividir com vocês neste Natal que se aproxima. Aconteça o que acontecer na vida de cada um de vocês, lutar, ranger os dentes, ter revolta ou dar margem a desespero não resolve NADA. NUNCA. Silenciar e escutar a voz do coração, a Voz do Alto no canto mais sossegado da sua mente, isto ajuda muito.

Não tenho capacidade poética ou inspiração divina para escrever um Magnificat, como fez a Virgem; mas, pedindo ao Pernalonga emprestado uma musica bonitinha e despretensiosa do R. Kelly, e agradecendo ao Magic Johnson o exemplo, eu digo piscando o olho: eu REALMENTE acredito que posso voar!

Beijo, amo vocês. Volto no Natal!

"I Believe I Can Fly

I used to think that I could not go on
And life was nothing but an awful song
But now I know the meaning of true love
I'm leaning on the everlasting arms

If I can see it, then I can do it
If I just believe it, there's nothing to it

I believe I can fly
I believe I can touch the sky
I think about it every night and day
Spread my wings and fly away
I believe I can soar
I see me running through that open door
I believe I can fly
I believe I can fly
I believe I can fly

See I was on the verge of breaking down
Sometimes silence can seem so loud
There are miracles in life I must achieve
But first I know it starts inside of me, oh

If I can see it, then I can do it
If I just believe it, there's nothing to it

Hey, if I just spread my wings
I can fly
I can fly
I can fly, hey
If I just spread my wings
I can fly"

14.11.05

Sem pretensão de ser nada além de uma pessoa que publica seu coração online.
Sem vontade de parecer nada além do que eu realmente sou.
Sem paciência para ego nenhum, nem o meu nem o dos outros.
Sem medo de nada a não ser de me perder no caminho.

Hoje eu quis vir aqui, sem ter muito o que falar, sem nenhuma obrigação de apresentar para vocês asas iridescentes ou pó de pirlimpimpim. Meu pai está muito doente e eu estou muito cansada. Mas a vontade de vir aqui permanece, este meu sentimento de curiosidade profunda a respeito de quem está aí, do outro lado desta tela iluminada...

Uma adolescente pensando que achou uma amiguinha
(achou sim, lindinha)...

Um serial killer pensando em fazer angú de borboleta
(um peteleco no seu nariz!)...

Uma pessoa sozinha pensando em suicídio
(pára de merda e vem conversar)...

Um amigo distante em busca de notícias
(você tem meu número de telefone)...

Um inimigo antigo em busca de regozijo
(fique à vontade!)...

Um estranho que já foi meu melhor amigo
(siga em paz, querido)...

Um estranho que ainda vai ser a pessoa mais importante da minha vida
(você está atrasado!)...

Um blogueiro preguiçoso em busca de plágio
(ih, nem tente, poucas pessoas têm força para ser eu; publique um gif animado e deixe para escrever amanhã)...

As reticências são tantas que o interesse pelo que acontece (e eu não fico sabendo) me mantém vindo aqui, mês após mês. Não há tristeza, alegria, sofrimento ou felicidade que me distraiam do interesse pela vida que eu sinto fluir subterrânea. Aqui ou no meio da madrugada, namorando a lua.

Que, aliás, está me chamando.

Beijo em todos, menos no serial killer. Aiaiai, menino, que coisa feia! Vá arranjar algo de útil para fazer!

5.11.05

Image hosted by Photobucket.com

Num quarto de hospital



Cinco e quinze da madrugada do quarto dia do mês de novembro. Na escuridão do quarto de hospital, escuto a porta abrir e a enfermeira plantonista avisar "vou acender a luz" e dar um "bom dia!" alto e alegre - um décimo de segundo antes da forte luz fria ferir meus olhos e os do meu pai, que ainda estava profundamente adormecido.

Era apenas para medir a pressão e a temperatura, o que poderia ter sido feito tranquilamente duas horas depois, quando o bom dia teria feito mais sentido. Efetuadas as devidas mensurações, a ensolarada plantonista deixa o aposento, acompanhada do olhar mais assassino do meu pai. Com um resmungo rouco, que eu suspeito ter sido um palavrão cabeludo, ele se ajeita na cama e volta a adormecer.

Meu sono, no entanto havia sido definitivamente encerrado pelo feliz sadismo da enfermeira. Totalmente desperta, sento na cama; levanto; vou ao banheiro; bebo água; torno a deitar; reviro na cama; desisto e levanto novamente.

(Enquanto isto, lá fora, o escuro estava pontilhado de milhares de pequenas estrelas de luz elétrica, que ofuscavam as estrelas do céu, já parcialmente encobertas pelos restos mortais das nuvens que tomaram conta do dia anterior. A névoa que acompanhava as nuvens, entretanto, já havia sumido, e o ar da noite estava claro.)

Neste tempo que passei no hospital não havia muito a fazer a não ser oferecer apoio moral e logístico a um pai tomado de mau-humor por estar internado. Este é o sinal mais claro de que ele está melhor a cada dia, e respondendo muito bem ao tratamento. Sempre fico nervosa quando o vejo meu genioso pai quietinho e aceitando passivamente o que acontece com ele. Isto aconteceu no princípio do tratamento, mas graças ao bom Deus ele é forte e está determinado a ficar bom, e a passividade sumiu. O que parece ser metade do caminho andado.

A falta de muita coisa a se fazer além de esperar, somada à necessidade de ficar reclusa no quarto do hospital - tanto para ajudar meu pai quanto para evitar os vírus e bactérias muito malvados que povoam os corredores do hospital - me fizeram liberar a mente para vagar onde ela quisesse. Não havia coisa alguma para ela fazer lá, e ela merecia - já que o corpo estava preso àquele quarto - a oportunidade de fugir por alguns instantes.

Não é engraçado como as coisas funcionam? A danadinha da minha mente, de posse da liberdade para ir onde quisesse - podendo ir às estrelas e voltar, nadar no mar do Caribe ou mimar-se de qualquer forma que lhe fosse mais prazerosa - preferiu voltar àquele quarto de hospital e meditar sobre seu parceiro cativo, o meu corpo.

(Pela janela do quarto podia ver a aurora tomar vagarosamente conta do céu. Certamente que é um privilégio estar num hospital que fica numa ilha no meio da Baía de Guanabara, e poder ver os perfis montanhosos de Niterói e do Rio ligados por esta enorme ponte, que parecia naquele instante um traço negro a sublinhar os amarelos e malvas do amanhecer. O mar escuro lentamente ficava azul-acinzentado. O céu se transformava numa pintura de Monet, e parecia um presente especial para mim. Um pássaro que não reconheci pelo canto conclamava e instigava todos os outros a saudar a chegada do sol. O dia já parecia que teria a beleza que realmente teve, e foi me visitar de antemão, naquele lugar triste. Tudo, mas TUDO mesmo tem seu lado bom.)

Tamanha imobilidade me é incomum. Talvez isto tenha feito com que eu notasse coisas que normalmente me passam despercebidas. Quando corro aqui e ali, cumprindo as mil e uma tarefas que minha rotina exige, mal noto meu corpo. Ele é a paciente mula de carga - o "irmão jumento", como diria São Francisco de Assis a respeito de seu próprio corpo - que mansa se submete a tudo que minha inquieta mente cisma de fazer. Só neste momento de parada forçada, quando não há possibilidade de inventar coisa alguma para meu corpo fazer, nem de forçá-lo a correr para lá e para cá, voltei-me para ele e o observei de forma mais atenta.

Lembrei-me - sou a rainha da idiossincrasia, parece - que minha irmã tem um amigo que vive em função de seu fetiche por mãos e pés. Ele tem um site sobre este tema, e realiza festas e eventos para seus... eh... correligionários. Este rapaz é respeitosa e reverentemente apaixonado pelas mãos e pés de minha irmã. É até justo que seja, minha irmã tem mesmo pés bonitos e arqueados, tornozelos bem torneados, mãos de dedos longos com unhas também longas e cuidadosamente tratadas todas as semanas, geralmente pintadas de vermelho. Que ele vive implorando para fotografar para seu site.

Examinando com olhar crítico meus próprios pés e mãos, tinha dúvidas se fariam o deleite de alguém com tal fetiche - apesar de saber que o fetiche é, por definição, inexplicável e ilógico. Não que meus pés e mãos sejam feios, porque não acho que sejam. São fortes, sem muita delicadeza.

Eu tenho muitos aspectos de meu corpo que são delicados - um rosto suave, um sorriso bonito, uns olhos verdes que expressam muita doçura, uma pele macia e cheirosa, uma voz que um amigo querido uma vez definiu como "voz de menina" - mas meus pés e mãos não estão entre estes atributos delicados. Eles estão em outro grupo de características físicas minhas que posso dizer que são quase viris - a maneira rápida e decidida como ando, a minha gargalhada estrondosa, minha juba de cabelos rebeldes.

(O sol já havia feito sua entrada triunfal no dia, terminando de rasgar a cortina de farrapos das nuvens do dia anterior, sendo solenemente anunciado por um galo-arauto das redondezas. O pássaro desconhecido continuava sua cantoria, mas agora apenas pontuava a algazarra dos bem-te-vis. O Rio de Janeiro é mesmo um lugar especial...)

Pois é, não acho que meus pés e mãos ficariam bem estáticos, numa foto em um site. Eles são prosaicos demais, visualmente inexpressivos. Minhas mãos são quadradas, não alongadas, meus dedos são curtos e gorduchos. Os pés são pouco arqueados, os tornozelos um tantinho grossos demais. Seu momento de beleza acontece quando estão em movimento. São pés e mãos que agem, trabalham e cuidam, não têm muito valor parados.

Meus pés agradam de modo intenso minha gata, pois ela adora que eu os estenda no ar para que ela possa esfregar sua maciez peluda neles. Temos um ritual matinal: quando acordo, ela já me aguarda na saída do quarto, e oferece imediatamente a barriga para o afago. Perfeitamente adestrada por ela, esfrego meu pé em seu pêlo, o que faz com que ela de pronto o abrace com as quatro patas, dando lambidas e mordiscadas amorosas nele. Depois ela dispara na minha frente em direção à cozinha e ao seu desjejum. Alimentada, ela novamente se esfrega em minha pernas e pés, num sinal de gratidão, e finalmente permite que eu tome meu café da manhã sossegada.

Meus pés são assim, são pés próprios para serem usados numa carícia. Quando não há outro uso para eles, os dois me mantêm estabilizada e firmemente plantada no chão. São pés firmes, seguros, que não me deixam tropeçar.

Da mesma forma são as minhas mãos: unhas mantidas curtas, pois quebram com facilidade, dedos ágeis e fortes, marcados pelos inúmeros pequenos cortes e queimaduras de mais de vinte anos na cozinha. Minhas mãos, tampouco, são bonitas em repouso. Elas se tornam bonitas quando trabalham; são velozes e capazes manuseando uma agulha de crochê ou fatiando frutas e legumes; são delicadas e precisas quando desenham ou quando costuram. São mãos amorosas com sua dona e - como os pés - sempre prontas para o carinho. Têm, os pés e as mãos, a mesma pele macia do resto do corpo, que nenhum produto de limpeza ou sapato apertado parece ser capaz de engrossar.

A conclusão a que cheguei - com o sol firme no céu e a madrugada definitivamente encerrada pela manhã - é a de que meu corpo, seus pés e mãos e olhos e voz e ouvidos, é bom. Ágil, forte e bonito quando se move, ele todo é uma acolhida e um aconchego, o que deixa meu espírito sereno e contente, pois é isso mesmo que desejo ser.

Decidi, nestas horas de meditação, que amo meu corpo. Ele é meu auxiliar e meu cúmplice nestes caminhos tortuosos que percorro. Quase nunca reclama dos maus-tratos que imponho a ele, e reage com alegria e prazer a cada pequeno agrado. Meu corpo, na verdade, é capaz de sobreviver com muito pouco, mas também decidi neste período que antecedeu a manhã do último dia desta - esperamos, esperamos, rezamos e pedimos - última internação de meu pai que ele precisa de mais.

Saí daquele hospital determinada a diminuir os maus-tratos o quanto puder, e a cuidar melhor desta minha mula querida. Quero torná-la a cada dia mais capaz, mais forte e mais veloz - e mais bonita e feliz - para que ela possa acompanhar com passo leve a minha mente a cada lugar que ela decidir ir.

Acho que também estou reagindo bem ao tratamento de meu pai...

21.10.05

Maratona

Queria que a vida tivesse botão de slow motion, ou o maravilhoso botão de pause que os aparelhos eletrônicos têm. Que sensato dos engenheiros de pensar que muitas vezes a velocidade com que andamos tem de diminuir ou mesmo parar por um instante. Mas não se acha o tal botãozinho em lugar algum do corpo ou da alma... o que me obriga a manter o passo, sem correr demais nem de menos, procurando o ritmo que vai ajudar a chegar ao fim desta corrida sem morrer no final, como o pobre mensageiro da batalha de Maratona.

Estabelecer rotinas novas sempre é complicado, principalmente quando a nova rotina é um tratamento que é quase pior que a doença que ele tenta curar. Para respirar com o peito menos apertado, reparo no pouquinho mais que ele come, no olhar e no passo um tantinho mais firmes, já sem a fraqueza debilitante da quimioterapia. Reparo que ele sorri um tantinho mais, assiste TV com um tantinho mais de interesse. Hoje quis sair a pé um pouquinho pela vizinhança, e nunca antes fiquei tão feliz em descer minha rua... mesmo só aquele pouquinho.

De pouquinho em pouquinho, passo a passo, um dia de cada vez. Sim, este é o mantra que quero usar - eu, que não costumo usar mantras de espécie alguma - para acertar o passo para a longa corrida:

Um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez...

1.10.05

Sossego

A maioria das pessoas equaciona sábado à noite com farra de algum tipo fora de casa. A banda Cidade Negra tem inclusive uma música que fala sobre isso, bastante animada. Nada contra sair sábado à noite, já fiz muito isso e acredito que farei de novo ainda muits vezes.

HOJE, no entanto, estou mais que feliz de estar em casa, quietinha no meu quarto, escutanto papai assitir televisão na sala e de vez em quando levantar e levar até ele um copo de suco, ou chá, ou água de coco. É bom saber que ele está aqui, ao alcance do meu amor, do meu toque, do meu cuidado. Saber que ainda não chegou a hora de não ser mais possível fazer tudo isto. Essa hora que todos sabemos que vai chegar para cada um de nós, mas que está assinalada como um lembrete na pele do peito dele, naquele X marcado pela médica para guiar a radioterapia.

Mas agora, agora não tem radioterapia, nem quimioterapia, nem cabelo caindo nem fraqueza ainda, tem meu paizinho sentado na sala, calmamente vendo um filme policial, enquanto eu vigio de longe, teclando no meu quarto. Tem o sossego de estarmos aqui, em paz, neste momento. Eu não troco isto por nada.

Haverá muita saída aos sábados por muito tempo ainda, creio eu, mas não há outro lugar no mundo que eu prefira estar agora que aqui. Queria que este momento se esticasse, esticasse, por dias e meses.

O tratamento, para melhor ou pior, começa segunda-feira.