24.2.05

Eu já volto!


Stella, Alfredo, Aninha, amigos todos:

Da mesma forma que há tristezas grandes demais para palavras, onde o silêncio é a única resposta, da mesma forma que há portas que se fecham que não se reabrem jamais, há alegrias que não podem ser descritas, há novos caminhos que se descortinam e mobilizam todo nosso ser por um instante.

Não abandono o Asa, apenas a borboleta dorme um segundo, pousada sobre um livro de poesias, enquanto a Assunção corre aqui e ali na vida real, coração e mente ocupadíssimos.

Tudo está muito bem, e vai ficar melhor!

Beijos estalados nas bochechas dos amigos, uma risada graaannndeee e feliz, e tchau!

Daqui a pouco volto!

27.1.05

Mergulho no inconsciente



Fecho os olhos. No espaço infinito interior, posiciono meu corpo mental num trampolim que aponta para o céu vazio. No espaço de três batidas de coração, percorro o trampolim e me lanço no nada. Uma respiração bem lenta... as nuvens muito brancas passam velozmente por mim enquanto caio, mas não há vento nem atrito, eu caio rápida e suavemente. Mais uma respiração lenta e profunda... meu corpo mental ensaia rodar no ar, fazer arabescos. Estou no reino onde tudo é possível, onde não há os habituais limites do físico. A queda se torna cada vez mais veloz, e mais suave.

Cada vez menos percebo meu corpo físico. Agora a realidade é a queda, o vôo. Uma terceira respiração, mais lenta e profunda que as outras duas... as nuvens brancas se partem, e posso ver lá embaixo, ainda pequenina, uma enseada de mar muito limpo e azul, uma praia de areia muito branca, e na beira da areia escadas que levam a uma casa. Minha casa. Minha praia, meu mar. Eu. Voltei.

Entro no mar como uma flecha, e me sinto cercada de bolhas que me pinicam gostoso... deve ser esta a sensação de mergulhar numa taça de champagne. A água é cristalina, e o céu ensolarado me permite ver meus alegres golfinhos nadando a meu lado. É uma escolta, porque meus alegres guardiães sabem que nas profundezas mais escuras deste mar existem tubarões que me enchem de temor. Mas aqui, na minha enseada, no meu lugar especial, eles não chegam, porque minha escolta da alegria não permite. Chego na praia, caminho pela areia úmida ao encontro da escadaria, e no pé dela dois seres me aguardam, um lobo grande e solene, uma pantera de olhos amarelos.

Um afago na cabeça de cada um, um olhar de boas vindas. Subimos juntos os degraus. Uns 50 deles, porque a casa fica no alto, e de sua janela posso ver ao mesmo tempo a enseada e o horizonte. Finalmente chego até a porta, com um suspiro cruzo o umbral, e a roupa de banho molhada dá lugar a uma túnica leve e folgada. Ao meu lado não estão mais um lobo e uma pantera, mas meu cãozinho Buggie e minha gatinha Dora, meus pequenos companheiros internos, familiares, queridos, cheios de vida e saúde, tão diferentes dos corpos sem vida de que eu me despedi fazem já alguns anos. Lá fora na praia eles são meus guarda-costas, as feras que me protegem de feras muito piores que trafegam pela mata, mas aqui são apenas meus filhinhos peludos, que me fazem companhia no meu lugar.

E o meu lugar é um enorme quarto, amplo, claro, com algumas portas que se abrem para outros lugares, diferentes, e neste quarto há uma imensa cama macia, onde muitas vezes vou apenas para repousar a mente cansada. Hoje, no entanto, apesar do cansaço, não vim para repousar, mas para averiguar a chegada de um novo companheiro.

Ao chegar à beira da cama, eu o vejo. Junto dele, cuidando do recém-chegado, o meu outro cãozinho, Ly – que em chinês quer dizer sorte –, amável cãozinho que no fim de sua vida foi pai adotivo de Dora e deste que chega agora... meu gatinho Tetê, ainda fraco da viagem, mas sem as marcas da doença que o derrubou ainda tão novo... nada de icterícia amarelando sua pele, nada de pêlo sem brilho, ele está deitado, ainda cansado da jornada, mas recuperando rapidamente o viço perdido, principalmente com os cuidados do pai cão, eles que sempre se gostaram tanto.

Sento no meio da cama, de pernas cruzadas, e meus quatro amigos se ajeitam em torno de mim. Eu sei que quando tornar a abrir os olhos para o mundo fora de mim, quando tiver de sair de meu mundo particular, a saudade deles vai me fazer doer o coração, mas agora é só a felicidade que qualquer bicho de estimação sente quando a dona chega em casa, agora é a alegria comum, corriqueira e preciosa dos ronronados, das lambidas afetuosas.

Dorinha, sempre a mais afoita dos dois irmãos felinos, abusa da paciência do gato e tem de ser repreendida, mas é uma repreensão cheia de riso. O Ly, como sempre fez, chega bem pertinho de minha coxa e mostra a barriga para afagos. Buggie, ciente de sua dignidade, deita um pouco ao largo da confusão, da maneira que sempre gostou: patas de frente paralelas diante dele, patas de trás esticadas ao máximo para trás, a barriga toda encostada no edredon fresquinho. Mas, apesar de tentar manter a aparência de lorde, a boca é toda sorrisos, e a língua aparece num arfar de felicidade. Mamãe está em casa.

E mamãe deita na cama, e deixa o amor simples dos seus bichinhos embalar seu sono. Amanhã de manhã a realidade se impõe. Mas a madrugada é muito mais amiga do sonho que da realidade.

17.1.05

Resposta ao Liberal Libertário Libertino


Alexandre,

Obrigada pela visita e pelo comentário. Foi um momento de prazer verdadeiro no meio de uma semana de puro desgosto. Obrigada mesmo.

Eu tenho estado profundamente mergulhada em mim mesma, e muito pouco na Internet. Seu blog e seus escritos continuam sendo uma referência para mim, de integridade, de coerência, de estrutura - parece maluquice minha falar disto logo depois de ler seu post sobre ser livre, mas é verdade: para ser livre é preciso ser autônomo, e para ser autônomo, é necessária uma forte estrutura mental e emocional.

Seu post sobre liberdade parece que foi escrito como recado para mim, como muita coisa que você escreve, menino. É alfinetada das mais salutares, e meu caso é muito parecido com o seu, apesar da incongruência de eu ser professora universitária, parte desta tribo que você despreza (coberto de razão).

Eu estou no mesmo lugar que você, no meio do Pampa em cima de um caixote. Mas o que você vê como infinitas possibilidades, eu enxergo como total desolação.

Mas não deixo de lutar para mudar minha maneira de ver as coisas.

Quanto a linkar você, estou mesmo precisando reformar meus links, adicionar muitos, não só o seu, e tirar alguns. Se a poeira baixar um pouquinho, vou tratar disto logo.

Um beijo carinhoso da sua admiradora

10.1.05




Tsunamis, Tempestades e Outros Desastres



Sina. Palavra pequena que significa tanta coisa diferente. Irmã menos famosa do Destino, muita gente sequer acredita que ela exista. Quem acredita, geralmente pensa que ela é mesquinha e pequena, inimiga da humanidade.

Quando nos deparamos com os grandes desastres – como o tornado que desabrigou tantos em Santa Catarina e o tsunami que matou centenas de milhares na Ásia – nos perguntamos sempre porque. Quem ou o que ordena que uma onda leve tantas pessoas, casas, cause tanta destruição. Será gesto da ira Divina? Mais uma das travessuras do Destino e de sua malvada irmã Sina? Que sina é esta, Pai Eterno, que faz com que tantas pessoas transformem suas férias singelas na praia num inferno de dor e sofrimento?

Eu não acho que os acontecimentos sejam ordenados assim, de maneira tão burocrática. Não acredito que um Destino brincalhão nos pregue peças de mau gosto deste tamanho, por diversão. Verdadeiramente penso que estamos neste mundo para vencê-lo, como se vence uma prova de olimpíada ou uma batalha. Os obstáculos estão em toda a parte, pequenos, grandes, obstaculozinhos irritantes ou sofrimentos enormes como rochedos pontiagudos nos quais caímos. E um Deus mais amoroso e gentil que o malicioso Destino nos estende sempre a mão e diz: “Eu ajudo você a passar por isto, vem...”.

Nesta hora, a Sina não é maldosa, é a penas o conjunto de treinamentos que a vida nos manda para nos ensinar a ser mais fortes, mais confiantes nesta Mão estendida. A ver que os bons momentos da vida têm de ser guardados no fundo do coração, como a namorada que amarra as cartas do amado em fita de seda e as guarda em uma caixa perfumada de sachês e flores secas, como o tesouro de amor que são. Porque são estes bons momentos, é a Esperança na Beleza, na Alegria, na Bondade, na Felicidade que são nossas armas para vencermos as batalhas cotidianas e as especiais, que nos atingem como um murro quando inocentemente dobramos a esquina cantarolando.

Eu tenho uma sina. Uma sina que me rasga em tiras por dentro, mas que é uma sina bonita e especial, um verdadeiro presente da vida. Deus me manda os perdidos, os doentes, os solitários, os que precisam de amor. E a mim é forçoso que eu forneça a eles o que lhes falta: cuidado, atenção, remédio, carinho, o amor incondicional que cura e consola.

Para conseguir fazer isto, recebi de Deus a mãe mais amorosa que uma pessoa poderia ter, uma mãe que cuidava de mim como um antiquário cuida de um vaso Sèvres (estou boa de metáforas hoje... acho que porque não quero pensar reto demais, sob o risco de não conseguir escrever isto). Quando tinha 16 anos, esta mãe adoeceu. Câncer no seio esquerdo. Cinco anos de tratamento. Metástase no fígado. Cinco meses de agonia. Morte. Minha mãe me ensinou a cuidar e a morrer, e foi também o primeiro ser de quem cuidei em sua fase terminal.

Tarefas das mais diversas, difíceis, todas: fazer de conta que eu não estava perdida no meio de uma tempestade, porque minha mãe estava sem chão, e não podia mais ser o MEU chão; levá-la às sessões de quimioterapia, e ver como aquela medicação vagarosamente a maltratava, arrancando seus cabelos, maltratando sua vaidade, debilitando seu sistema imunológico; cuidar dela na sua última semana de vida no hospital, banhando, alimentando (enquanto ela comeu), limpando sua urina e suas fezes; servindo de auxiliar de cirurgia, quando o seu médico resolveu que tentaria aliviar sua respiração entrecortada fazendo uma punção abdominal para tirar o líquido do fígado que se desfazia lentamente com o tumor.

Tudo isto, que escrito parece pavorosamente duro, eu fazia movida pela mais premente necessidade de mostrar a ela que eu a amava, que eu não permitiria que ela passasse por aquilo sozinha, que eu queria que ela soubesse o quanto eu era GRATA pelo amor e cuidado que ela teve comigo, pelas coisas bonitas que ela me ensinou. Mas tudo isto tem um custo pessoal alto. Depois que minha mãe morreu, o sofrimento todo que estava engarrafado explodiu numa úlcera gástrica e em crises de choro que vinham de repente, e me sacodiam como uma boneca de pano, e me deixavam prostrada quando partiam.

Esta é a sina: dar de mim de tal forma a quem necessita, que sofro de ‘anemia da alma’. A cada parente doente, a cada bichinho que parte (já me despedi de quatro, todos muito amados), a cada perda, a energia que se esvaiu de mim retorna muito lentamente, e durante um tempo fico oca, inerte, entregue a um sofrimento contra o qual nada posso fazer. Não é possível reagir, só deixar o tsunami passar, e depois reconstruir o que ele botou abaixo. Não é só destruição, é também uma limpeza e uma renovação, mas que dói como se me arrancassem a pele.

Desta vez foi mais um bichinho: meu gato Tetê, que tirei das ruas quando ainda cabia na palma de minha mão, e de quem cuidei e em quem depositei todo meu afeto por seis anos. Um belo dia no início de dezembro, a surpresa: o gatinho que tiramos de casa um pouquinho apático, com um comportamento esquisito, ao chegar na clínica era um gato com uma patologia hepática grave, patologia que durante um mês comeu metade de sua massa corpórea e finalmente o levou domingo de tarde, nove de janeiro.

Lá vou eu, a mesma rotina de minha mãe: vigiar o soro, dar alimento, lavar, cuidar, fazer punção abdominal, ajudar a respirar, levar para a clínica, ver o rosto da veterinária ficar mais e mais grave. E assistir de perto mais uma batalha perdida para a morte.

Aqui, uma pausa. Deve ter gente lendo isto que vai ficar escandalizada, achando que eu estou equiparando o sofrimento de perder minha mãe com o sofrimento de perder um bicho de estimação. Não estou. Estou dizendo que o esforço desprendido no cuidar é o mesmo, as noites sem dormir são as mesmas, as lágrimas caem do mesmo jeito, e quando eles partem, a Sue está oca, e dentro dela está apenas o fantasma de uma dor que ela presenciou de muito perto, e que dentro dela ainda não se dissipou.

Peço então desculpas aos amigos que vêm aqui saber da Sue, ela está perdida numa praia deserta em algum lugar, esperando a tempestade passar para que ela possa começar a retirar os entulhos. Não sei com que freqüência virei aqui, nem o que vou escrever. Porque hoje, só o que sou é um gatinho moribundo lutando para respirar.

24.12.04



Post de Natal 1



"Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro, enquanto Quirino era governador da Síria. E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, desposada com ele, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para ele na sala.

Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, disse-lhes: ‘Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas deitado numa manjedoura’, e de repente se juntou ao anjo uma multidão do exército celeste a louvar a Deus, dizendo:

‘Glória a Deus no mais alto dos céus,
e paz na terra aos homens que Ele ama!
’"(Lucas 2, 1-14)






Post de Natal 2



Natal é a época de lembrar quem a gente ama. Melhor que isso, é lembrar que a gente AMA. Que é capaz, mesmo com tanta coisa contra, mesmo com tantos desencontros.

Por saber que sou capaz, e feliz por me saber capaz, encaro 2005 com o coração leve. E ofereço esta canção de Natal àquele que é capaz, e não sabe.

Amo muito você. Feliz Natal.






Have Yourself A Merry Little Christmas

Have yourself a merry little Christmas,
Let your heart be light
From now on,
our troubles will be out of sight

Have yourself a merry little Christmas,
Make the Yule-tide gay,
From now on,
our troubles will be miles away.

Here we are as in olden days,
Happy golden days of yore.
Faithful friends who are dear to us
Gather near to us once more.

Through the years
We all will be together,
If the Fates allow
Hang a shining star upon the highest bough.
And have yourself A merry little Christmas now.

17.12.04

O Contrário do que se Esperava


Uma amiga veio correndo contar: você viu? Não vi. O que foi? Vai lá.

Ah, nada mais era que um Conto de Natal.

O Espírito do Natal Passado apareceu, de monóculo e barriguinha saltando da camisa apertada. Com as falhas dos cabelos deixando o couro cabeludo muito branco aparecer, ele contava uma história de como às vezes confiamos em quem não devíamos. Com respingos de Nescau por toda a expansão abdominal, o ser ectoplásmico ria-se e fazia o monóculo saltar. Livrei-me deste com uns respingos de água benta.

Apareceu-me, então, o Espírito do Natal Presente. Jovem, longos cabelos negros combinavam com os longos dedos de músico. Ao mover-se, o cheiro de 4711 perfumava o ambiente. Este me contou uma história de aventura, de como nós mesmos construímos nosso presente. Quando eu estava aconchegada em seus ombros largos, disse baixinho: lembre-se que estou aqui.

Enquanto ainda sentia o odor de sua Colônia no ar, o Fantasma do Natal Futuro apareceu. Bem, apareceu não é bem o termo. Ele surgiu como o Gato aparece para Alice, primeiro apenas o sorriso, depois os olhos. Nunca chegou a aparecer totalmente, mas deixou o desafio no ar:

"Catch me if you can!"

E é em direção a este futuro que corro feliz e apressada. Porque quem vive de passado é museu, e as pessoas que têm medo de viver. Porque, ao contrário do que se esperava, o que vi não me feriu, me deu a certeza de que o mais certo que eu fiz na vida foi me livrar de um fantasma careca e barrigudo que tem como único mérito malabarismos divertidos.

Besitos

11.12.04

Quando se chega ao ponto de perceber que não se tem mais nada a não ser a si mesma, quando se vê que nada se possui, que não há seguranças, não há o certo e determinado, aí que percebemos que estamos caminhando sobre nossas próprias pernas, numa estrada que é só nossa, e que depende de nós onde vamos chegar.

Eu escolhi a estrada da gentileza, da doçura, do carinho. Porque é agindo assim que eu me sinto melhor. Não vou aprender a me defender de quem amo, não vou aprender a agredir em autodefesa. Então – que fazer? – vou sofrer quando os que eu amo me agridem, vou sentir quando eles se fecham em autodefesa... porque por mais que eles não acreditem, não há o que temer de mim.

Eu vou ser obrigada a carregar este coração até o fim de minha vida, e ao cabo dela vou depositá-lo aos pés do meu criador. Tomara que ele ache que seja um presente apropriado, porque mais nada tenho a oferecer.


I got a name (Jim Croce)

Like the pine trees lining the winding road
I’ve got a name, I’ve got a name.
Like the singing bird and the croaking toad
I’ve got a name, I’ve got a name.
And I carry it with me like my daddy did,
But I’m living the dream that he kept hid
Moving me down the highway,
Rolling me down the highway
Moving ahead so life won’t pass me by.

Like the north wind whistling down the sky
I’ve got a song, I’ve got a song.
Like the whippoorwill and the baby’s cry
I’ve got a song, I’ve got a song.
And I carry it with me and I sing it loud
If it gets me nowhere, I’ll go there proud
Moving me down the highway,
Rollin’ me down the highway,
Moving ahead so life won’t pass me by.

And I’m gonna go there free…

Like the fool I am and I’ll always be
I’ve got a dream, I’ve got a dream.
They can change their minds but they can’t change me
I've got a dream, I’ve got a dream.
Oh, I know I could share it if you want me to,
If you’re going my way, I’ll go with you
Moving me down the highway,
Rolling me down the highway,
Moving ahead so life won’t pass me by.


Eu tenho um nome

Como os pinheiros enfileirados nas estradas
Eu tenho um nome, eu tenho um nome.
Como o pássaro que canta e o sapo que coaxa,
Eu tenho um nome, eu tenho um nome.
E o carrego comigo como fazia meu pai,
Mas vivo o sonho que ele mantinha encoberto
Movendo a mim mesma pela estrada,
Rolando comigo pela estrada
Levando-me à frente para que a vida não me deixe para trás.

Como o vento Norte que desce sibilando do céu
Eu tenho uma canção, eu tenho uma canção.
Como o pássaro noturno e o choro do bebê
Eu tenho uma canção, eu tenho uma canção.
E eu a trago comigo e a canto alto
Se me levar ao nada, irei para lá com orgulho
Movendo a mim mesma pela estrada,
Rolando comigo pela estrada
Levando-me à frente para que a vida não me deixe para trás.

E vou até lá livre…

Como a tola que sou e sempre serei
Eu tenho um sonho, eu tenho um sonho.
Eles podem mudar de idéia, mas não podem mudar a mim:
Eu tenho um sonho, eu tenho um sonho.
Ah, eu sei que poderia compartilhá-lo se você quiser,
Se você estiver caminhando na mesma direção, caminho contigo
Movendo a mim mesma pela estrada,
Rolando comigo pela estrada
Levando-me à frente para que a vida não me deixe para trás.

10.12.04

Lamento



Para quê tudo isto, afinal de contas? De que adianta?

Os amigos vão embora, os amores são imperfeitos, a felicidade é uma coisa fugidia, a idade chega, a cobrança das pessoas não cessa nunca, a vida é cheia de nãos, nuncas, não podes, impossíveis.

Eu hoje sou uma pessoa absolutamente despossuída. Não tenho mais nada. Perdi minha mãe, perdi dois grandes amores, perdi amigos que me fazem muita falta, perdi minha juventude, estou perdendo a esperança. Nada, nada mais me resta.

A não ser eu mesma e meus mortos.

23.11.04


O Outro



Tem vezes que a paixão invade, e o que se sente é mais importante do que o que se faz. Tem vezes que a carência invade, e o que se precisa é mais importante que o que se diz. Tem vezes que o medo invade, e o que se teme é maior que o que se vê.

Mas quando o amor invade, e toma conta, e preenche todos os espaços, o medo que se sente é o de ferir a quem se ama. A carência que ameaça é a que podemos não ser aquilo que o amado precisa. A paixão desbota e cai no chão esquecida, empalidecida pela imensa alegria de saber que você está aqui.

O que surge é este outro que existe independente de mim, diferente de mim, vibrando em sintonia comigo, e cuja mera presença dá a mim satisfação espiritual maior que mulheres com mais casca apenas vislumbram na paixão física mais intensa.

Não há paixão que me dê o que você me dá. Não há medo ou carência que me impeça de dizer o que eu sempre digo e que ninguém jamais te disse: minha mente, minha alma, meu afeto, meu trabaho e minha vida estão aqui, a serviço do que para mim é mais precioso que todo o ouro de Salomão - sua felicidade.

(Hoje, olhando com cuidado o post, cheguei à conclusão que a citação tinha de ser um pouco maior, pois assim pequenina não explica tudo. Lá vai mais Corção então...)

"Somos pobres do outro; como se o sangue das veias não nos bastasse e fosse urgente trocá-lo, numa transfusão quente e viva, de coração para coração. Precisamos do outro, para o fazer comum, para a obra, sem dúvida alguma; mas muito mais para o uso comum da palavra e do trigo. Precisamos do outro para construir cidades e para ouvir um disco. Para ler livros escritos, e para ter leitores dos livros que escrevemos. Para tudo; e para nada. Para andar o mesmo caminho, à toa; para estar ao nosso lado, em silêncio. Pelo calor da proximidade, pelo conforto da compreensão. Precisamos da esmola do outro; da esmola viva, dele mesmo, como é, outro e próximo.

Quando vamos andando nas ruas, no meio da acabrunhante solidão das ruas, e vemos surgir de repente entre ombros e cabeças alheias a velha face conhecida, a boa face amiga, o tempo pára e nosso coração se aquece. É bom ver o rosto do amigo; já não estamos sós. O antigo susto que desde a infância nos persegue, medo de escuro e de solidão, se desfaz quando encontramos o amigo.

Somos pobres, fundamentalmente pobres, de carne e de espírito. Pobres como as criancinhas que morreriam de fome e de medo, se o mundo não fosse para elas um jardim cheio de mãos.

(...) Bendita seja nossa pobreza, e benditos os ombros que encontramos para nos servir de muleta!"


(Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, ps. 118/119)

1.11.04




Sonho de rosas



Hoje à noite tive um sonho. Neste sonho estava num jardim, num pequeno canteiro, com antigas roseiras. As roseiras estavam cheias de botões, mas sufocadas pelas folhas mortas, seus galhos emaranhados como por forte vento, a terra ressecada. Que dó me deu ver aquelas veneráveis roseiras abandonadas assim.

Lá fui eu, vagarosamente separei os galhos emaranhados, retirei uma a uma as folhas mortas que ainda estavam penduradas nos galhos, varri o chão, reguei, dei uma remexida na terra do canteiro, coloquei terra nova e adubada por cima. Recolhi o lixo todo, me preparava para levar tudo para um depósito qualquer, quando uma voz me avisou: “Sue, olha...”

As três roseiras – eu disse que eram três? – estavam vivas, vibrantes, desabrochadas. A mais próxima de mim, à minha direita, tinha rosas amarelas, de um amarelo tão intenso que mais pareciam douradas, umas rosas sem espinho, lisas, que abriam como pequenos cálices de ouro. As rosas pareciam me dizer “somos a Amizade”.

No canto mais distante de mim, uma roseira de rosas malva, cor de aurora. Suaves, mais miúdas que as outras, desabrochavam em pequenos cachos de manhã. Como criancinhas rosadas, estas rosas me diziam, em coro, “somos os Dons da Alma”...

No canto esquerdo, a maior roseira de todas. Ameaçadora com seus espinhos – fôra a que dera maior trabalho para limpar, como os arranhões em minhas mãos podiam atestar –, eu podia ver que, nela, o trabalho ainda não estava terminado. No entanto, sua resposta aos meus cuidados era ainda mais generosa que a das outras duas. Rosas rubras, enormes, abertas como imensos cataventos sanguíneos, me olhavam silenciosas. Não me diziam o que eram, mas quando eu perguntei seus nomes, elas apenas me perguntaram o que eu pretendia plantar no canto que estava vago, bem à minha frente.

Repentinamente percebi que havia um toco morto diante de mim. Eu olhei para a roseira-sangue, e já que ela não me dizia o que ela representava, perguntei que roseira era aquela que jazia morta ali. As flores da roseira desabrocharam ainda mais, e responderam, pesarosas: “Esta é a Paixão. Ela morreu faz pouco tempo”. Olhei para a roseira morta, e entendi a pontada que senti no peito ao olhar para aquele tronco seco. Comentei em voz alta e um pouco embargada que não tinha ferramentas para arrancar aquelas raízes profundas.

“Escolhe uma muda e deposita no côncavo que você vê em cima deste toco“, foi a resposta. Dei conta que havia uma bandeja de mudas, bem ao alcance da minha mão direita, e eram todas jovens roseiras das mais variadas cores. Intrigada, examinei todas. A que me chamou mais atenção foi uma muda que possuía uma única rosa branca.

Branca? Não exatamente. As bordas de suas pétalas tinham cores diferentes, fios coloridos em suas pontas. O centro do botão tinha este arremate em amarelo bem clarinho, e as cores iam ficando mais vivas à medida que as fieiras de pétalas se aproximavam da parte de fora, passando do laranja para o rosa-chá, para o rosa claro e o rosa profundo, chegando ao arremate de um vermelho muito parecido com a da roseira rubra. Parecia uma rosa que continha todas as outras rosas dentro dela. E o branco era de uma perfeição aveludada que me encantou, nem esverdeado nem amarelado, como algumas vezes costumam ser as rosas brancas, mas tinha o branco muito alvo das margaridas.

Silenciosamente retirei esta muda da bandeja e removi o saco plástico que envolvia suas raízes. Ajoelhei-me, depositei com cuidado aquela única rosa branca e sua pequenina roseira no côncavo da paixão morta. Uma coisa extraordinária aconteceu... a pequena muda se fundiu com a antiga raiz e começou a crescer numa velocidade espantosa, até virar uma roseira adulta. Entretanto, a rosa multicor que estava desabrochada, retraiu-se até virar novamente um botão!

Tonta, olhei para as rosas-sangue numa pergunta muda. A resposta veio num doce murmúrio interior:

“Você escolheu o Amor, que é a reunião de todas nós. Mas o amor necessita de dois. Enquanto o segundo não visitar este jardim, esta rosa permanece em botão, e nós seremos suas guardiãs. Mas você não deve deixar de regá-la com suas lágrimas, de adubá-la com seus sorrisos. E de vir nos visitar de tempos em tempos. Precisamos muito destes cuidados seus...”

- Quem SÃO as rosas rubras? perguntei entre assustada e impaciente.

“Quem guarda as amizades e o amor, e distribui os dons da alma?” foi a resposta.

- Ah, é o coração! respondi.

E acordei.