I believe I can fly
Tenho estado ausente. Não ausente em espírito, simplesmente ocupada demais para sentar e escrever aqui algo que faça sentido escrever. Nunca fui de escrever no blog para cumprir agenda. Quando não tenho algo a dizer, simplesmente me calo, e meus leitores - os que ainda têm paciência de vir aqui espiar :) - sabem que têm três anos de histórias para reler e relembrar. Assunto é que não falta!
Hoje, no entanto, tive vontade de passar aqui para dizer que está tudo bem. O tratamento de radioterapia de meu pai já se encerrou, o de quimio está na reta final. Ele se recupera lentamente, tanto do tratamento (sofrido, tudo isso... tonteiras, quedas, febre, falta de apetite, mau humor...) quanto, parece, do câncer. Estamos otimistas. Não está tudo bem, entretanto, porque há a possibilidade concreta de uma sobrevida longa e tranquila para ele; está tudo bem porque eu achei dentro de mim um centro de serenidade que nunca havia descoberto antes. Isto significa que, o que quer que aconteça, estará sempre tudo bem.
Esta fé na minha serenidade interior, esta certeza na minha capacidade de lidar com o que a vida me apresentar, é uma conquista importante, e algo que gostaria de dividir com vocês neste Natal que se aproxima. Aconteça o que acontecer na vida de cada um de vocês, lutar, ranger os dentes, ter revolta ou dar margem a desespero não resolve NADA. NUNCA. Silenciar e escutar a voz do coração, a Voz do Alto no canto mais sossegado da sua mente, isto ajuda muito.
Não tenho capacidade poética ou inspiração divina para escrever um Magnificat, como fez a Virgem; mas, pedindo ao Pernalonga emprestado uma musica bonitinha e despretensiosa do R. Kelly, e agradecendo ao Magic Johnson o exemplo, eu digo piscando o olho: eu REALMENTE acredito que posso voar!
Beijo, amo vocês. Volto no Natal!
"I Believe I Can Fly
I used to think that I could not go on
And life was nothing but an awful song
But now I know the meaning of true love
I'm leaning on the everlasting arms
If I can see it, then I can do it
If I just believe it, there's nothing to it
I believe I can fly
I believe I can touch the sky
I think about it every night and day
Spread my wings and fly away
I believe I can soar
I see me running through that open door
I believe I can fly
I believe I can fly
I believe I can fly
See I was on the verge of breaking down
Sometimes silence can seem so loud
There are miracles in life I must achieve
But first I know it starts inside of me, oh
If I can see it, then I can do it
If I just believe it, there's nothing to it
Hey, if I just spread my wings
I can fly
I can fly
I can fly, hey
If I just spread my wings
I can fly"
20.12.05
14.11.05
Sem pretensão de ser nada além de uma pessoa que publica seu coração online.
Sem vontade de parecer nada além do que eu realmente sou.
Sem paciência para ego nenhum, nem o meu nem o dos outros.
Sem medo de nada a não ser de me perder no caminho.
Hoje eu quis vir aqui, sem ter muito o que falar, sem nenhuma obrigação de apresentar para vocês asas iridescentes ou pó de pirlimpimpim. Meu pai está muito doente e eu estou muito cansada. Mas a vontade de vir aqui permanece, este meu sentimento de curiosidade profunda a respeito de quem está aí, do outro lado desta tela iluminada...
Uma adolescente pensando que achou uma amiguinha
(achou sim, lindinha)...
Um serial killer pensando em fazer angú de borboleta
(um peteleco no seu nariz!)...
Uma pessoa sozinha pensando em suicídio
(pára de merda e vem conversar)...
Um amigo distante em busca de notícias
(você tem meu número de telefone)...
Um inimigo antigo em busca de regozijo
(fique à vontade!)...
Um estranho que já foi meu melhor amigo
(siga em paz, querido)...
Um estranho que ainda vai ser a pessoa mais importante da minha vida
(você está atrasado!)...
Um blogueiro preguiçoso em busca de plágio
(ih, nem tente, poucas pessoas têm força para ser eu; publique um gif animado e deixe para escrever amanhã)...
As reticências são tantas que o interesse pelo que acontece (e eu não fico sabendo) me mantém vindo aqui, mês após mês. Não há tristeza, alegria, sofrimento ou felicidade que me distraiam do interesse pela vida que eu sinto fluir subterrânea. Aqui ou no meio da madrugada, namorando a lua.
Que, aliás, está me chamando.
Beijo em todos, menos no serial killer. Aiaiai, menino, que coisa feia! Vá arranjar algo de útil para fazer!
Sem vontade de parecer nada além do que eu realmente sou.
Sem paciência para ego nenhum, nem o meu nem o dos outros.
Sem medo de nada a não ser de me perder no caminho.
Hoje eu quis vir aqui, sem ter muito o que falar, sem nenhuma obrigação de apresentar para vocês asas iridescentes ou pó de pirlimpimpim. Meu pai está muito doente e eu estou muito cansada. Mas a vontade de vir aqui permanece, este meu sentimento de curiosidade profunda a respeito de quem está aí, do outro lado desta tela iluminada...
Uma adolescente pensando que achou uma amiguinha
(achou sim, lindinha)...
Um serial killer pensando em fazer angú de borboleta
(um peteleco no seu nariz!)...
Uma pessoa sozinha pensando em suicídio
(pára de merda e vem conversar)...
Um amigo distante em busca de notícias
(você tem meu número de telefone)...
Um inimigo antigo em busca de regozijo
(fique à vontade!)...
Um estranho que já foi meu melhor amigo
(siga em paz, querido)...
Um estranho que ainda vai ser a pessoa mais importante da minha vida
(você está atrasado!)...
Um blogueiro preguiçoso em busca de plágio
(ih, nem tente, poucas pessoas têm força para ser eu; publique um gif animado e deixe para escrever amanhã)...
As reticências são tantas que o interesse pelo que acontece (e eu não fico sabendo) me mantém vindo aqui, mês após mês. Não há tristeza, alegria, sofrimento ou felicidade que me distraiam do interesse pela vida que eu sinto fluir subterrânea. Aqui ou no meio da madrugada, namorando a lua.
Que, aliás, está me chamando.
Beijo em todos, menos no serial killer. Aiaiai, menino, que coisa feia! Vá arranjar algo de útil para fazer!
5.11.05
Num quarto de hospital
Cinco e quinze da madrugada do quarto dia do mês de novembro. Na escuridão do quarto de hospital, escuto a porta abrir e a enfermeira plantonista avisar "vou acender a luz" e dar um "bom dia!" alto e alegre - um décimo de segundo antes da forte luz fria ferir meus olhos e os do meu pai, que ainda estava profundamente adormecido.
Era apenas para medir a pressão e a temperatura, o que poderia ter sido feito tranquilamente duas horas depois, quando o bom dia teria feito mais sentido. Efetuadas as devidas mensurações, a ensolarada plantonista deixa o aposento, acompanhada do olhar mais assassino do meu pai. Com um resmungo rouco, que eu suspeito ter sido um palavrão cabeludo, ele se ajeita na cama e volta a adormecer.
Meu sono, no entanto havia sido definitivamente encerrado pelo feliz sadismo da enfermeira. Totalmente desperta, sento na cama; levanto; vou ao banheiro; bebo água; torno a deitar; reviro na cama; desisto e levanto novamente.
(Enquanto isto, lá fora, o escuro estava pontilhado de milhares de pequenas estrelas de luz elétrica, que ofuscavam as estrelas do céu, já parcialmente encobertas pelos restos mortais das nuvens que tomaram conta do dia anterior. A névoa que acompanhava as nuvens, entretanto, já havia sumido, e o ar da noite estava claro.)
Neste tempo que passei no hospital não havia muito a fazer a não ser oferecer apoio moral e logístico a um pai tomado de mau-humor por estar internado. Este é o sinal mais claro de que ele está melhor a cada dia, e respondendo muito bem ao tratamento. Sempre fico nervosa quando o vejo meu genioso pai quietinho e aceitando passivamente o que acontece com ele. Isto aconteceu no princípio do tratamento, mas graças ao bom Deus ele é forte e está determinado a ficar bom, e a passividade sumiu. O que parece ser metade do caminho andado.
A falta de muita coisa a se fazer além de esperar, somada à necessidade de ficar reclusa no quarto do hospital - tanto para ajudar meu pai quanto para evitar os vírus e bactérias muito malvados que povoam os corredores do hospital - me fizeram liberar a mente para vagar onde ela quisesse. Não havia coisa alguma para ela fazer lá, e ela merecia - já que o corpo estava preso àquele quarto - a oportunidade de fugir por alguns instantes.
Não é engraçado como as coisas funcionam? A danadinha da minha mente, de posse da liberdade para ir onde quisesse - podendo ir às estrelas e voltar, nadar no mar do Caribe ou mimar-se de qualquer forma que lhe fosse mais prazerosa - preferiu voltar àquele quarto de hospital e meditar sobre seu parceiro cativo, o meu corpo.
(Pela janela do quarto podia ver a aurora tomar vagarosamente conta do céu. Certamente que é um privilégio estar num hospital que fica numa ilha no meio da Baía de Guanabara, e poder ver os perfis montanhosos de Niterói e do Rio ligados por esta enorme ponte, que parecia naquele instante um traço negro a sublinhar os amarelos e malvas do amanhecer. O mar escuro lentamente ficava azul-acinzentado. O céu se transformava numa pintura de Monet, e parecia um presente especial para mim. Um pássaro que não reconheci pelo canto conclamava e instigava todos os outros a saudar a chegada do sol. O dia já parecia que teria a beleza que realmente teve, e foi me visitar de antemão, naquele lugar triste. Tudo, mas TUDO mesmo tem seu lado bom.)
Tamanha imobilidade me é incomum. Talvez isto tenha feito com que eu notasse coisas que normalmente me passam despercebidas. Quando corro aqui e ali, cumprindo as mil e uma tarefas que minha rotina exige, mal noto meu corpo. Ele é a paciente mula de carga - o "irmão jumento", como diria São Francisco de Assis a respeito de seu próprio corpo - que mansa se submete a tudo que minha inquieta mente cisma de fazer. Só neste momento de parada forçada, quando não há possibilidade de inventar coisa alguma para meu corpo fazer, nem de forçá-lo a correr para lá e para cá, voltei-me para ele e o observei de forma mais atenta.
Lembrei-me - sou a rainha da idiossincrasia, parece - que minha irmã tem um amigo que vive em função de seu fetiche por mãos e pés. Ele tem um site sobre este tema, e realiza festas e eventos para seus... eh... correligionários. Este rapaz é respeitosa e reverentemente apaixonado pelas mãos e pés de minha irmã. É até justo que seja, minha irmã tem mesmo pés bonitos e arqueados, tornozelos bem torneados, mãos de dedos longos com unhas também longas e cuidadosamente tratadas todas as semanas, geralmente pintadas de vermelho. Que ele vive implorando para fotografar para seu site.
Examinando com olhar crítico meus próprios pés e mãos, tinha dúvidas se fariam o deleite de alguém com tal fetiche - apesar de saber que o fetiche é, por definição, inexplicável e ilógico. Não que meus pés e mãos sejam feios, porque não acho que sejam. São fortes, sem muita delicadeza.
Eu tenho muitos aspectos de meu corpo que são delicados - um rosto suave, um sorriso bonito, uns olhos verdes que expressam muita doçura, uma pele macia e cheirosa, uma voz que um amigo querido uma vez definiu como "voz de menina" - mas meus pés e mãos não estão entre estes atributos delicados. Eles estão em outro grupo de características físicas minhas que posso dizer que são quase viris - a maneira rápida e decidida como ando, a minha gargalhada estrondosa, minha juba de cabelos rebeldes.
(O sol já havia feito sua entrada triunfal no dia, terminando de rasgar a cortina de farrapos das nuvens do dia anterior, sendo solenemente anunciado por um galo-arauto das redondezas. O pássaro desconhecido continuava sua cantoria, mas agora apenas pontuava a algazarra dos bem-te-vis. O Rio de Janeiro é mesmo um lugar especial...)
Pois é, não acho que meus pés e mãos ficariam bem estáticos, numa foto em um site. Eles são prosaicos demais, visualmente inexpressivos. Minhas mãos são quadradas, não alongadas, meus dedos são curtos e gorduchos. Os pés são pouco arqueados, os tornozelos um tantinho grossos demais. Seu momento de beleza acontece quando estão em movimento. São pés e mãos que agem, trabalham e cuidam, não têm muito valor parados.
Meus pés agradam de modo intenso minha gata, pois ela adora que eu os estenda no ar para que ela possa esfregar sua maciez peluda neles. Temos um ritual matinal: quando acordo, ela já me aguarda na saída do quarto, e oferece imediatamente a barriga para o afago. Perfeitamente adestrada por ela, esfrego meu pé em seu pêlo, o que faz com que ela de pronto o abrace com as quatro patas, dando lambidas e mordiscadas amorosas nele. Depois ela dispara na minha frente em direção à cozinha e ao seu desjejum. Alimentada, ela novamente se esfrega em minha pernas e pés, num sinal de gratidão, e finalmente permite que eu tome meu café da manhã sossegada.
Meus pés são assim, são pés próprios para serem usados numa carícia. Quando não há outro uso para eles, os dois me mantêm estabilizada e firmemente plantada no chão. São pés firmes, seguros, que não me deixam tropeçar.
Da mesma forma são as minhas mãos: unhas mantidas curtas, pois quebram com facilidade, dedos ágeis e fortes, marcados pelos inúmeros pequenos cortes e queimaduras de mais de vinte anos na cozinha. Minhas mãos, tampouco, são bonitas em repouso. Elas se tornam bonitas quando trabalham; são velozes e capazes manuseando uma agulha de crochê ou fatiando frutas e legumes; são delicadas e precisas quando desenham ou quando costuram. São mãos amorosas com sua dona e - como os pés - sempre prontas para o carinho. Têm, os pés e as mãos, a mesma pele macia do resto do corpo, que nenhum produto de limpeza ou sapato apertado parece ser capaz de engrossar.
A conclusão a que cheguei - com o sol firme no céu e a madrugada definitivamente encerrada pela manhã - é a de que meu corpo, seus pés e mãos e olhos e voz e ouvidos, é bom. Ágil, forte e bonito quando se move, ele todo é uma acolhida e um aconchego, o que deixa meu espírito sereno e contente, pois é isso mesmo que desejo ser.
Decidi, nestas horas de meditação, que amo meu corpo. Ele é meu auxiliar e meu cúmplice nestes caminhos tortuosos que percorro. Quase nunca reclama dos maus-tratos que imponho a ele, e reage com alegria e prazer a cada pequeno agrado. Meu corpo, na verdade, é capaz de sobreviver com muito pouco, mas também decidi neste período que antecedeu a manhã do último dia desta - esperamos, esperamos, rezamos e pedimos - última internação de meu pai que ele precisa de mais.
Saí daquele hospital determinada a diminuir os maus-tratos o quanto puder, e a cuidar melhor desta minha mula querida. Quero torná-la a cada dia mais capaz, mais forte e mais veloz - e mais bonita e feliz - para que ela possa acompanhar com passo leve a minha mente a cada lugar que ela decidir ir.
Acho que também estou reagindo bem ao tratamento de meu pai...
21.10.05
Maratona
Queria que a vida tivesse botão de slow motion, ou o maravilhoso botão de pause que os aparelhos eletrônicos têm. Que sensato dos engenheiros de pensar que muitas vezes a velocidade com que andamos tem de diminuir ou mesmo parar por um instante. Mas não se acha o tal botãozinho em lugar algum do corpo ou da alma... o que me obriga a manter o passo, sem correr demais nem de menos, procurando o ritmo que vai ajudar a chegar ao fim desta corrida sem morrer no final, como o pobre mensageiro da batalha de Maratona.
Estabelecer rotinas novas sempre é complicado, principalmente quando a nova rotina é um tratamento que é quase pior que a doença que ele tenta curar. Para respirar com o peito menos apertado, reparo no pouquinho mais que ele come, no olhar e no passo um tantinho mais firmes, já sem a fraqueza debilitante da quimioterapia. Reparo que ele sorri um tantinho mais, assiste TV com um tantinho mais de interesse. Hoje quis sair a pé um pouquinho pela vizinhança, e nunca antes fiquei tão feliz em descer minha rua... mesmo só aquele pouquinho.
De pouquinho em pouquinho, passo a passo, um dia de cada vez. Sim, este é o mantra que quero usar - eu, que não costumo usar mantras de espécie alguma - para acertar o passo para a longa corrida:
Um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez...
Queria que a vida tivesse botão de slow motion, ou o maravilhoso botão de pause que os aparelhos eletrônicos têm. Que sensato dos engenheiros de pensar que muitas vezes a velocidade com que andamos tem de diminuir ou mesmo parar por um instante. Mas não se acha o tal botãozinho em lugar algum do corpo ou da alma... o que me obriga a manter o passo, sem correr demais nem de menos, procurando o ritmo que vai ajudar a chegar ao fim desta corrida sem morrer no final, como o pobre mensageiro da batalha de Maratona.
Estabelecer rotinas novas sempre é complicado, principalmente quando a nova rotina é um tratamento que é quase pior que a doença que ele tenta curar. Para respirar com o peito menos apertado, reparo no pouquinho mais que ele come, no olhar e no passo um tantinho mais firmes, já sem a fraqueza debilitante da quimioterapia. Reparo que ele sorri um tantinho mais, assiste TV com um tantinho mais de interesse. Hoje quis sair a pé um pouquinho pela vizinhança, e nunca antes fiquei tão feliz em descer minha rua... mesmo só aquele pouquinho.
De pouquinho em pouquinho, passo a passo, um dia de cada vez. Sim, este é o mantra que quero usar - eu, que não costumo usar mantras de espécie alguma - para acertar o passo para a longa corrida:
Um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez, um dia de cada vez...
1.10.05
Sossego
A maioria das pessoas equaciona sábado à noite com farra de algum tipo fora de casa. A banda Cidade Negra tem inclusive uma música que fala sobre isso, bastante animada. Nada contra sair sábado à noite, já fiz muito isso e acredito que farei de novo ainda muits vezes.
HOJE, no entanto, estou mais que feliz de estar em casa, quietinha no meu quarto, escutanto papai assitir televisão na sala e de vez em quando levantar e levar até ele um copo de suco, ou chá, ou água de coco. É bom saber que ele está aqui, ao alcance do meu amor, do meu toque, do meu cuidado. Saber que ainda não chegou a hora de não ser mais possível fazer tudo isto. Essa hora que todos sabemos que vai chegar para cada um de nós, mas que está assinalada como um lembrete na pele do peito dele, naquele X marcado pela médica para guiar a radioterapia.
Mas agora, agora não tem radioterapia, nem quimioterapia, nem cabelo caindo nem fraqueza ainda, tem meu paizinho sentado na sala, calmamente vendo um filme policial, enquanto eu vigio de longe, teclando no meu quarto. Tem o sossego de estarmos aqui, em paz, neste momento. Eu não troco isto por nada.
Haverá muita saída aos sábados por muito tempo ainda, creio eu, mas não há outro lugar no mundo que eu prefira estar agora que aqui. Queria que este momento se esticasse, esticasse, por dias e meses.
O tratamento, para melhor ou pior, começa segunda-feira.
A maioria das pessoas equaciona sábado à noite com farra de algum tipo fora de casa. A banda Cidade Negra tem inclusive uma música que fala sobre isso, bastante animada. Nada contra sair sábado à noite, já fiz muito isso e acredito que farei de novo ainda muits vezes.
HOJE, no entanto, estou mais que feliz de estar em casa, quietinha no meu quarto, escutanto papai assitir televisão na sala e de vez em quando levantar e levar até ele um copo de suco, ou chá, ou água de coco. É bom saber que ele está aqui, ao alcance do meu amor, do meu toque, do meu cuidado. Saber que ainda não chegou a hora de não ser mais possível fazer tudo isto. Essa hora que todos sabemos que vai chegar para cada um de nós, mas que está assinalada como um lembrete na pele do peito dele, naquele X marcado pela médica para guiar a radioterapia.
Mas agora, agora não tem radioterapia, nem quimioterapia, nem cabelo caindo nem fraqueza ainda, tem meu paizinho sentado na sala, calmamente vendo um filme policial, enquanto eu vigio de longe, teclando no meu quarto. Tem o sossego de estarmos aqui, em paz, neste momento. Eu não troco isto por nada.
Haverá muita saída aos sábados por muito tempo ainda, creio eu, mas não há outro lugar no mundo que eu prefira estar agora que aqui. Queria que este momento se esticasse, esticasse, por dias e meses.
O tratamento, para melhor ou pior, começa segunda-feira.
28.9.05
"Adeus vou-me embora (trecho)
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Como? Mas como é que eu escrevi nove livros e em nenhum deles eu vos disse: eu vos amo? Eu amo quem tem paciência de esperar por mim e pela minha voz que sai através da palavra escrita. Sinto-me de repente tão responsável. Porque se eu sempre soube usar a palavra - embora às vezes gaguejando - então sou uma criminosa se não disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim. O que será que querem ouvir de mim? Tenho o instrumento na mão e não sei tocá-lo, esta é a questão. Que nunca será resolvida. Por falta de coragem? Devo por contenção ao meu amor, devo fingir que não sinto o que sinto: amor pelos outros?
Para salvar esta madrugada de lua cheia eu vos digo: eu vos amo.
Não dou pão a ninguém, só sei dar umas palavras. E dói ser tão pobre. Estava no meio da noite sentada na sala de minha casa, fui ao terraço e vi a lua cheia - sou muito mais lunar que solar. E uma solidão tão maior que o ser humano pode suportar, esta solidão me toma se eu não escrever: eu vos amo. Como explicar que me sinto mãe do mundo? Mas dizer 'eu vos amo' é quase mais que posso suportar! Dói. Dói muito ter um amor impotente. Continuo porém a esperar."
(crônica publicada em 20 de abril de 1968 no Jornal do Brasil, e republicada no livro A Descoberta do Mundo, Ed. Rocco, páginas 95-96)
Mais uma vez, Clarice. Essa mulher que é tão diferente de mim quanto pode ser uma mulher de outra. Ela, que carrega altiva a tristeza eslava mesclada à melancolia nordestina. Eu que carrego entre risos e gritos e lágrimas a impulsividade italiana mesclada à irreverência carioca. Ela alta, esguia, 'com ares de princesa egípcia', como um dia escreveu em outra crônica. Eu baixa - não tão baixa para este país de pessoas desnutridas, mas baixa se comparada à juventude com quem lido em sala de aula - gorducha, muito pouco preocupada em parecer princesa de qualquer espécie.
Duas mulheres muito, muito diferentes. Como pode ser que cada palavra das crônicas desta mulher tão diversa me suba aos olhos como algo que vem do lugar mais fundo e íntegro do meu próprio coração? As noites que ela passou insone, passo eu insone hoje; as madrugadas que eu e ela fomos à janela, para a conversa silenciosa com nossa amiga lua. Falamos coisas díspares, isso é certo, completamente diferentes em nosso relacionamento com esta lunar amiga das mulheres noturnas. No final, no entanto, tudo muito parecido.
Tenho certeza que o que Clarice considera 'ser mãe' é tão contrário à minha maternidade interna quanto nosssas vidas e personalidades são antagônicas.
Mas é nessa maternidade que convergimos, não é Clarice? Pois é.
Neste amor que rasga a alma, que dói muito, que dói sem promessa de jamais parar de doer, não é Clarice? Pois é.
Neste amor impotente, sem força, sem capacidade de nada - a não ser continuar a esperar -, não é Clarice? Pois é.
Clarice já não espera mais. O que quer que seja pelo que esperava, conquistou. Cabe a mim agora meu quinhão de lua na janela, de insônia, de espera. Eu sento, então, e espero. Não é Clarice? Pois é.
10.9.05
Minha Mãe Maria
2005 A.B. (antes da biópsia)
"- Seu pai parece ter um tumor no pulmão esquerdo conhecido como carcinoma de células pequenas; também parece já haver uma neoplasia no linfonodo esquerdo da área do mediastino.
- E o que se faz, doutor?
- Está nas mãos de Deus."
2005 D.B. (depois da biópsia)
"- E então, doutor?
- Não era o carcinoma de células pequenas, mas um outro tipo, chamado de carcinoma de células pouco-diferenciadas.
- E agora?
- Ah, seu pai é forte, ele está bem clinicamente, tem todas as condições de encarar este problema e ter sucesso.
- Ou seja, continua nas mãos de Deus."
Há uma cena no filme Casa dos Espíritos que me toca especialmente. A filha, representada pela atriz Winona Ryder, está largada no chão de uma cela, depois de ser barbaramente torturada pela polícia política. Abusada, machucada, quase destruída. O espírito de sua mãe já morta, a maravilhosa Meryl Streep, vem ter com ela, e lança sobre ela uma bênção. Aquela bênção é o necessário para que a moça resista e sobreviva àquela situação pavorosa.
Nunca fui fisicamente torturada, como imagino que a maioria dos meus leitores também não. Mas não duvido que quase todos já tenham passado por alguns períodos de sua vida emocional em que se sentiram abusados, machucados, quase destruídos. Nestes momentos, eu também sinto a alma de minha mãe Maria Helena pertinho de mim, lançando seu amor e sua bênção sobre minha cabeça cansada, dando com o gesto de carinho a força que eu preciso para resistir. Por que a vida não necessita apenas de força, que é algo que eu tenho. É preciso também resistência e perseverança para que a luz que possuímos em nosso coração não se torne definitivamente em profunda sombra.
Por isso, agora, do fundo do meu coração, eu peço: Mãe Maria, vem até mim!
Let It Be (Lennon / McCartney)
When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be.
And when the broken hearted people
Living in the world agree,
There will be an answer, let it be.
For though they may be parted there is
Still a chance that they will see
There will be an answer, let it be.
Let it be, let it be, let it be. Yeah
There will be an answer, let it be.
And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be, let it be.
There will be an answer, let it be.
Let it be, let it be, yeah, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be.
30.8.05
Desejos
Se eu soubesse o que é preciso para acalmar seu coração.
Se eu tivesse a força sobre-humana que você pensa que eu tenho.
Se apenas você entendesse que este amor que tudo entende e tudo aceita é – além de sincero, forte e eterno – uma tentativa de mostrar a você como se deve amar.
Se eu conseguisse fazer você entender que a minha serenidade vem da aceitação do que é, sem tentar mudar a realidade à minha volta; é apenas lucidez.
Se eu pudesse, apenas por um momento, fazer você olhar o mundo através dos meus olhos, se enxergar como eu o enxergo, enxergar o mundo com menos medo e mais interesse e alegria.
Se ao menos esta RAIVA toda fosse embora daqui de volta para onde veio.
Se nós, que já conquistamos tanto juntos, pudéssemos também conquistar tudo isto.
Se fosse possível ignorar o mundo louco e malvado que faz com que o amor sem limites assuste os que estão em volta.
Se eu não estivesse tão absorta em juntar minhas forças para a longa batalha que sabemos que está para chegar.
Se ao menos você fosse um pouquinho mais seguro de quem você é.
Se Deus tivesse permitido que eu nunca escutasse a palavra câncer.
Se Ele tivesse dado a você uma mãe amorosa como a minha.
Se ao menos – ao menos isso! – nós conseguíssemos hoje, apenas desta vez, dormir em paz…
Ah, seria tão bom!
Tonight
Elton John
Tonight
Do we have to fight again
Tonight
I just want to go to sleep
Turn out the light
But you want to carry grudges
Nine times out of ten
I see the storm approaching
Long before the rain starts falling
Tonight
Does it have to be the old thing
Tonight
It's late, too late
To chase the rainbow that you're after
I'd like to find a compromise
And place it in your hands
My eyes are blind, my ears can't hear
And I cannot find the time
Tonight
Just let the curtains close in silence
Tonight
Why not approach with less defiance
The girl who'd love to see you smile
Who'd love to see you smile
Tonight
27.8.05
Tem dias que o sol me faz borboleta. Eu olho este céu azul do Rio, intenso com a luz dourada do sol daqui, e me dá vontade de voar em cabriolas como a mais baldia e pequena das borboletas amarelas. Voar em volutas, em elipses, em exclamações. Alguns dias exigem que eu seja uma borboleta-manhã.
Outras vezes, o sentido agudo da beleza-triste me faz borboleta. Uma borboleta toda negra, com um único pingo de cor intensa, carmim, como um grito de alerta. Nestes dias eu me quedo silenciosa e cheia de presságios. Nestas vezes tenho de ser uma borboleta meia-noite.
Vez ou outra, é a poesia que me torna borboleta. Vez ou outra, a borboleta azul invade a alma como se pousasse numa flor, num lento abre-fecha-abre de grandes asas transparente-aveludadas. É imperioso que - vez ou outra - eu seja a borboleta que aparece de repente, num rasgo de sol da tarde, declamando poesia.
De vez em quando, ah, de vez em quando eu encontro você. Você me faz borboleta. Uma borboleta monarca, quente, laranja, absoluta em minha necessidade de resvalar minhas asas num suave beijo de pestanas pelo seu queixo moreno. Tangenciar num toque leve, leve, a linha do seu pescoço. Derreter e me pingar inteira em sua pele, cobrindo com meu vôo seu território. De vez em quando. Ahh... de vez em quando. Mesmo em pleno inverno. Mesmo no meio da madrugada. Sua presença me transforma numa rainha com asas de borboleta.
Outras vezes, o sentido agudo da beleza-triste me faz borboleta. Uma borboleta toda negra, com um único pingo de cor intensa, carmim, como um grito de alerta. Nestes dias eu me quedo silenciosa e cheia de presságios. Nestas vezes tenho de ser uma borboleta meia-noite.
Vez ou outra, é a poesia que me torna borboleta. Vez ou outra, a borboleta azul invade a alma como se pousasse numa flor, num lento abre-fecha-abre de grandes asas transparente-aveludadas. É imperioso que - vez ou outra - eu seja a borboleta que aparece de repente, num rasgo de sol da tarde, declamando poesia.
De vez em quando, ah, de vez em quando eu encontro você. Você me faz borboleta. Uma borboleta monarca, quente, laranja, absoluta em minha necessidade de resvalar minhas asas num suave beijo de pestanas pelo seu queixo moreno. Tangenciar num toque leve, leve, a linha do seu pescoço. Derreter e me pingar inteira em sua pele, cobrindo com meu vôo seu território. De vez em quando. Ahh... de vez em quando. Mesmo em pleno inverno. Mesmo no meio da madrugada. Sua presença me transforma numa rainha com asas de borboleta.
14.8.05
"O Intransponível (Clarice Lispector)
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de táxi. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. que importava se um dia sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvara era uma bolsa velha de senhora, com a alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafiando. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o supenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás."
(Publicado originalmente em 25/10/1969 no JB, republicado no livro A descoberta do mundo, Ed. Rocco, página 243)
Encontros assim acontecem, estes momentos marcantes que surgem diante de nós, como esta aparição canina e ruiva que era a resposta às preces da menina ruiva. Alguns deles são momentos que apontam mudanças definitivas na nossa vida, um daqueles marcos existenciais que balizam as mudanças de trajeto. Alguns outros, talvez mais preciosos, são clarões que iluminam nossa vida por um instante, fadados a desaparecer, ainda que não fadados ao esquecimento.
Ah, moreno de olhos doces de basset, eu nem percebi você chegar, não sei por quanto tempo você fica, nem mesmo se este nosso encontro deve durar. Mas estou muito, muito feliz por você ter parado nesta esquina, neste momento, tenha me olhado com estes olhos e me feito sonhar.
Tudo o que eu quero agora é uma razão que te faça ficar.
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de táxi. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. que importava se um dia sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvara era uma bolsa velha de senhora, com a alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafiando. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o supenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás."
(Publicado originalmente em 25/10/1969 no JB, republicado no livro A descoberta do mundo, Ed. Rocco, página 243)
Encontros assim acontecem, estes momentos marcantes que surgem diante de nós, como esta aparição canina e ruiva que era a resposta às preces da menina ruiva. Alguns deles são momentos que apontam mudanças definitivas na nossa vida, um daqueles marcos existenciais que balizam as mudanças de trajeto. Alguns outros, talvez mais preciosos, são clarões que iluminam nossa vida por um instante, fadados a desaparecer, ainda que não fadados ao esquecimento.
Ah, moreno de olhos doces de basset, eu nem percebi você chegar, não sei por quanto tempo você fica, nem mesmo se este nosso encontro deve durar. Mas estou muito, muito feliz por você ter parado nesta esquina, neste momento, tenha me olhado com estes olhos e me feito sonhar.
Tudo o que eu quero agora é uma razão que te faça ficar.
