17.3.05

Mulheres guerreiras



"É quase tempestade e me mantenho aqui, com o olhar fixo no horizonte cinza, esperando o momento em que será possível acreditar em tudo aquilo que realmente existe. Alguém me disse enquanto o céu estava claro que acabei por me trancar num mundo que eu mesma criei e no qual poucas pessoas permito entrar e eu não acreditei. Tenho uma certa dificuldade em relação à crença naquilo que não me agrada. Mas o fato é que esse alguém tem toda razão e já me sinto vitoriosa por reconhecer isso. Me manter forte não é uma obrigação, mas uma conseqüência e o que preciso agora é colocar em prática os planos que há anos venho acumulando, que se tornaram uma espécie de motivação mas que também, como eu, precisam se transformar e deixar de ser apenas planos. Eu quero a espada em minhas mãos."

Minha querida Roberta Febran escreveu o texto acima. Ela sabe muito bem o que é ser uma mulher guerreira, presa em uma luta que muitas vezes não foi escolha sua, e incapaz de parar um minuto sequer para respirar algum ar que não tenha cheiro de sangue, suor e medo. é uma irmandade sofrida e silenciosa, esta das mulheres guerreiras. Elas se conhecem, se entendem profundamente, mas só o que têm tempo de trocar é um olhar de compreensão e um "é..." pensativo, antes que os atacantes voltem a tomar toda a sua atenção.

Os atacantes são muitos: falta de grana, falta de afeto, falta de lealdade, insuficiências diversas e acidentes dolorosos vários. Às vezes é também o abandono - do pai, do marido, dos filhos, do governo - que as força a pegar em armas. o problema é que, quando se pega uma arma, raramente nos permitem colocá-la de volta na sua bainha.

Eu tenho lamentado muito toda esta luta. Não paro de lutar, porque não tenho intenção de me deixar degolar pelas circunstâncias. Mas eu sonho com uma vida mais delicada, holywoodiana, com robes de cetim e boás de plumas, e mules com pompons e poodles cor de rosa que cabem na palma da mão. Almofadas de cetim, cabelos sempre bem penteados, luvas de pelica, todo o tempo do mundo, unhas sempre bem feitas, nenhuma louça para lavar, nenhum desencanto, nenhum sofrimento. Eu sonho com a vida de comercial Mollico, com a vida chocolate Godiva.

Uma vida chapada, de vitrine, eu sei, é a miragem que seduz quem tem muito pouco tempo para sonhar. Eu queria reconquistar meu direito ao sonho, queria não ter de viver na prática esta tortura tão Laranja Mecânica de ter de manter os olhos sempre abertos. Fechar os olhos por um instante, recostar a cabeça, relaxar... ó luxúria das luxúrias...

Mas, como disse muito bem uma outra amiga, guerreira mais experimentada, mãe que criou praticamente sozinha quatro filhos e que salvou o ex-marido da falência três vezes com seu próprio trabalho: "Esquece, Sue. Tem gente que nasceu para a boa vida, nós nascemos para quebrar pedra."

Oh, well. De volta à enxada. Sem nunca embainhar a espada.

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