18.10.04



Um Certo Cansaço



A vida tem coisas espetaculares. As ditas coincidências que nos levam a dobrar uma esquina e dar de cara com uma alma gêmea, O gesto inesperado de apoio e carinho vindo de uma pessoa com quem não se contava. Um dia que nasce esplendoroso de dentro de uma noite chuvosa. A precisão quase geométrica das pétalas de uma rosa. Tem muita coisa que faz com que se olhe em volta e diga: Deus fez tudo muito bem feitinho...

Mas tem gente que parece ter como ocupação profissional transformar o bonito em feio, o milagre em corriqueiro, a vida em tédio. Alguns por falta de um olhar mais caridoso para si e para o mundo, alguns atormentados por tarefas prementes desta nossa época agitada, outros simplesmente porque sofrem de azedume crônico da alma. Entretanto, há pessoas demais assim, e as almas mais líricas sofrem com os constantes baldes de água fria a lhe jogarem no rosto.

Hoje, se fosse possível, gostaria que todos que lessem isto tentassem olhar longamente e em silêncio para algo bem bonito - pode ser esta rosa aí em cima - e deixassem que a mensagem que está oculta nesta beleza se revelasse diantede seus olhos.

"The most incredible things about miracles is that they happen. A few clouds in heaven do come together into the staring shape of one human eye. A tree does stand up in the landscape of a doubtful journey in the exact shape of a note of interrogation. I have seen both these things myself within the las few days. Nelson does die in the instant of victory; and a man named Williams does quite accidentally murder a man named Williamson; it sounds like a sort of infanticide. In short, there is in life a sort of elfin coincidence which people reckoning on the prosaic may perpetually miss. As it has been well expressed in the paradox of Poe, wisdom should reckon on the unforeseen." (G.K. Chesterton - Father Brown Stories - Penguin Popular Classics - p. 07)

"A coisa mais incrível a respeito dos milagres é que eles acontecem. Algumas nuvens no céu se juntam, sim, na forma de um olho humano a encarar. Uma árvore se destaca, sim, da paisagem de uma jornada dúbia, na forma exata de um ponto de interrogação. Eu mesmo vi estas duas coisas nos últimos dias. Nelson realmente morre no instante da vitória; e um homem chamado Williams, por puro acidente, pode, sim, assassinar um homem chamado Williamson ("Filho de William"); soa como uma espécie de infanticídio. Em suma, existe na vida uma espécie de coincidência mágica que as pessoas que raciocinam com o prosaico perpetuamente ignoram. Como já foi bem expresso no paradoxo de Poe, a sabedoria tem de levar em conta o imprevisto." (tradução minha)

11.10.04


Mais um Adeus



Recife, inverno de 1985. A mocinha que eu fui ficou sabendo que um dos escritores que adorava estaria numa livraria o Shopping Recife autografando seus livros. Entusiasmada mas tímida, pegou dois deles e levou dentro da bolsa. Não sabia se teria coragem de se aproximar de tão exaltada figura e pedir o carinho de ter uma dedicatória pessoal para provar que ele era de fato seu amigo querido. Não estranhem ela nunca o ter visto antes, o amor através dos livros que os escritores e seus leitores trocam é forte e verdadeiro. Tanto quanto o leitor precisa da visão especial do escritor para conhecer melhor o mundo, o escritor precisa daqueles corações e daquelas mentes vibrando em harmonia com ele e dizendo, "Sim, é isso mesmo! Como não percebi antes?"

A Sue-mocinha então selecionou os dois livros deste amigo, e foi para o shopping, ainda sem saber se teria coragem de se aproximar dele. Vai que a imensa simpatia e doçura presente nos livros se mostrasse apenas construção do talento dele de escritor, e o homem não fosse da mesma estatura?

O Shopping. Lá estava ele. De longe percebeu um homem maduro, mais velho um pouco que seu pai, mas ainda bonitão. Parecia simpático. Foi-se aproximando devagarinho, e teve a grata surpresa de ser acolhida com um enorme sorriso. O grande escritor não se esquivou de mineiramente trocar um dedinho de prosa com a menina, e ainda escreveu uma dedicatória que fez o coração dela inchar de alegria: "A Sue esta lembrança afetuosa com um abraço amigo do Fernando Sabino - Recife, 19/06/85"

O livro, Faca de Dois Gumes, foi relido aquela noite com uma nova emoção. Agora ela sabia um pouquinho mais deste livro, sabia que ele tinha sido escrito por um homem bom, com entusiasmo de menino e modos de cavalheiro. Ela já tinha vontade de escrever bem como ele. Agora passou a ter vontade de ser uma pessoa assim.

Quase 20 anos depois, o telejornal anuncia que o meu amigo morreu aos 81 anos, depois de dois anos de luta contra um câncer. Será que alguém vai entender as lágrimas que me escorrem dos olhos enquanto escrevo isto? Será que vocês vão entender que Fernando Sabino - e Manoel Bandeira, e Carlos Drummond e Clarice Lispector e tantos outros - é parte da minha alma?

Hoje o mineirinho contador de causo morreu. Esse mundo ficou um pouquinho mais vazio e mais triste. E o outro mundo ficou um pouquinho mais alegre. Diz o noticiário...



Velório de Sabino é no S. João Batista
O Globo
GloboNews TV

RIO - O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Alguns amigos como o cartunista e escritor Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo estão no local. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição "nasci homem, morri menino".




O que eu digo é que este menino tocou fundo meu coração, e agora o Asa está de luto. Não quero falar mais, deixo com vocês Fernando Sabino...





A Última Crônica - Fernando Sabino



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.


A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

30.9.04



Caixas



Pessoas sensíveis demais às vezes procuram proteção fechando suas almas numa caixa muito bem trancada, à qual ninguém mais tem acesso. Pode ser uma caixa rica ou pobre, forrada de jornal ou de almofadas aveludadas. Pode ser feita do mais perfumado sândalo entalhado ou do mais duro aço. Não importa, a realidade é que quem está lá dentro sofre da mais profunda solidão.

Foi de dentro de uma caixa destas, feita de resistente jacarandá e forrada de livros, que eu vi chegar o início da minha adolescência. Eu fui uma pré-adolescente trancada dentro de mim mesma, e eu não sabia sair. Mas Deus nunca me desampara, e Ele mandou um emissário com a chave que eu tinha perdido.

Um anjo, Stella era um anjo caído. É engraçado como este nome - Estrela - volta e meia surge importante na minha vida, geralmente quando estou chegando em alguma encruzilhada do meu caminho. Pois, "Tia Stella" era uma amiga de minha mãe formada em educação física que reunia pequenos grupos de amigas para aulas de ginástica.

Minha mãe, sempre preocupada com minha tendência para engordar - o que para ela era a pior herança genética que havia me legado - , e diante da minha recusa categórica de ir para uma academia, convenceu-me a participar de algumas aulas da Tia Stella.

Ela era uma mulher doce e tranquila por fora, que lutava contra seus demônios interiores. Tinha sua própria caixa, só que forrada de espinhos. Mesmo assim, teve compaixão daquela menina emudecida. Com uma mistura de carinho, paciência, exercícios físicos, palavras de incentivo, conselhos e aulas de expressão corporal, devagarinho abriu a tampa da minha caixa, estendeu a mão e me ajudou a sair.

Não consigo lembrar de maior gesto de amor que alguém além de minha mãe tenha tido comigo. Se hoje eu escrevo, e algumas pessoas agradecem dizendo que minhas palavras as ajudam, eu tenho de responder que os agradecimentos se devem em grande parte à Stella. Fazem mais de 25 anos que não a vejo, e soube que ela perdeu algumas grandes batalhas contra aqueles demônios, mas venceu algumas também. Espero que tenha conseguido trocar o forro de espinhos de sua caixa por um suave cetim. Eu rezo por isto, porque - se minha mãe me trouxe a este mundo e me fez a pessoa que sou - a Stella me apresentou à vida e me deu as primeiras ferramentas para conquistar minha autonomia. E eu a amo muito, e sou muito agradecida, e serei para sempre.

A minha caixa continua aqui, a tampa aberta, muitos pequenos tesouros conquistados ao longo destes 40 anos carinhosamente arrumados dentro dela. Ainda me refugio lá dentro em momentos de muita dor. Só que hoje a chave está segura bem firme na minha mão.

Então, deixo aqui o convite para aqueles que amo e sei que têm suas caixas, alguns deles mal tendo começado as tentativas de sair delas: venham, queridos venham para fora, vale a pena. O mundo é terrivelmente belo e assustador, cheio de aventura e de frieza, de alegria mesclada com perda. Mas há muito tempo eu aprendi que não há coisa alguma tão assustadora que não possa ser enfrentada, se há uma mão estendida esperando pela nossa.


Minha mão está aqui.



Hide In Your Shell

Supertramp

Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride
What will you gain making your life a little longer?
Heaven or Hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?
Shelter behind painting your mind and playing joker

Too Frightening to listen to a stranger
Too Beautiful to put your pride in danger
You're waiting for someone to understand you
But you've got demons in your closet
And you're screaming out to stop it
Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you scramble for

Don't let the tears linger on inside now
Cos it's sure time you gained control
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know
Well, let me show you the nearest signpost
To get your heart back on the road
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know.

All through the night as you lie awake and hold yourself so tight
What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
How would it be if you could see the world through my eyes?

Too Frightening - the fire's getting colder
Too Beautiful- to think you're getting older
You're looking for someone to give an answer.
But what you see is just an illusion
You're surrounded by confusion
Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you can scramble for

Don't let the tears... just let me know
I wanna know... I wanna know you...
Well let me know you
I wanna feel you
I wanna touch you
Please let me near you
Can you hear what I'm saying?
Well I'm hoping, I'm dreamin', I'm prayin'
I know what you're thinkin'
See what you're seein'
Never ever let yourself go

Hold yourself down, hold yourself down
Why d'ya hold yourself down?
Why don't you listen, you can
Trust me,
There's a place I know the way to
A place there is need to feel you
Feel that you're alone
Hear me
I know exactly what you're feelin'
Cos all your troubles are within you
Please begin to see that I'm just bleeding to
Love me, love you
Loving is the way to
Help me, help you -
Why must we be so cool, oh so cool?
Oh, we're such damn fools...

19.9.04


Oh, boy!




Bom, muita gente melhor que eu já falou bastante do livro, inclusive o próprio autor. Mas é necessário que eu faça algum tipo de homenagem a este talentoso amigo.

Fabio, lá vai: um conto de presente

FDR chega ao Paraíso

Finalmente, depois de uma longa vida de sucessos e de negar com veemência, durante toda ela, a existência de qualquer coisa remotamente parecida com Deus, Fabio Danesi morre. Ainda meio desorientado e sem consciência completa de sua situação, por estar dormindo ao falecer, Danesi chega aos Portais do Paraíso. Na entrada, um coro de anjos, São Pedro e Fred Astaire o aguardam.

- Benvindo, Filho! São Pedro sorri, bondosamente.
- Welcome, my boy! Fred Astaire sorri, alegre.
- Aleluia! Cantam os anjos.

Fabio observa aquilo por um instante. Coçando a cabeça, diz para si mesmo:

- Eu bem que pensei que não devia ter tomado tanto vinho hoje à noite, que sonho esquisito!

- Não, não, não é sonho my dear chap. Você morreu e está no Paraíso. Vamos entrar, Deus decretou feriado e tem uma festa à sua espera. Fred Astaire estende a mão num cumprimento.

- Deus? Estou ficando gagá, só pode ser. Deus não existe. Nossa, o que tinha naquele vinho!? Responde Danesi, apertando a mão do dançarino, mesmo achando tudo aquilo alucinação, pois ele é um cavalheiro.

- Ah, sim. Sobre este probleminha, senhor Rossi - retruca São Pedro. O Senhor Todo Poderoso não só existe, como é um grande fã seu. Ele o está aguardando, quer discutir alguns pontos de sua obra.

Fabio apenas levanta as sobrancelhas, incrédulo.

- Discutir MINHA obra com Deus? E que tal se eu quiser discutir com Deus a obra DELE? partindo, é claro, do princípio que o tal Ele exista.

- Bem, old fellow, este é um assunto meio espinhoso. Deus é um artista, ele não tem muita simpatia por críticos. Qual o autor que tem, não é verdade?

- Nenhum que eu conheça, Mr. Astaire. Nem mesmo eu, para falar a verdade.

- Fred, m'boy, e eu espero que me permita chamá-lo Fabio? Oh, claro, meu caro. O Senhor não que r criticar sua obra, apenas conversar sobre ela.

- Ora, porque não? Tudo neste sonho está tão estranho, não me espanta ter Fred Astaire me chamando de Fabio e Deus querendo conversar sobre minha obra. O escritor sorri seu sorriso doce de menino, que faz com que os anjos soltem arpejos de felicidade

- Caro Fabio, encare se quiser como um sonho. Depois de algumas semanas aqui, você vai começar a se acostumar com a idéia. Agora, shall we? As celebrações estão esperando apenas por você para começar. Astaire sorri de volta e indica os Portais do Paraíso, abertos e iluminados por uma luz intensa.

- Hummm... férias no paraíso, eh? Isso dava um conto interessante. Fred, por acaso tem com você papel e caneta?

São Pedro sorri, benevolente.
Fred Astaire sorri, divertido.
Aleluia! Cantam os anjos.

10.9.04


Ruins


Reforma



Primeiro vem o quebra-quebra. Devagarinho as paredes vão-se abrindo em janelas e da escuridão faz-se a luz. Mas a luz nos mostra que há centenas de pequenos defeitos a ser corrigidos, milhares de mínimas falhas para consertar. Pega o formão, respira fundo, bate-bate, fura-fura, derruba, joga fora o entulho.

Depois do sofrimento começa a construção. Às vezes a construção é lenta, parece que nunca vai acabar. Faz a argamassa, espalha em cada tijolo, monta o complexo quebra-cabeça, deixa secar. Enche os buracos, alisa a massa, faz a parede crescer. Dá forma ao conteúdo novo, faz um novo espaço nascer.

De repente, surpresos, nos pegamos colorindo uma vida que estava cinza, ordem e beleza brotando do caos, olhamos em volta perplexos e nos perguntamos: "Mas fui EU que fiz tudo isto?"

Para Maurício, com um beijo.

8.9.04



O que é que se diz?


Ah, é duro quando uma pessoa que amamos parte antes de nós, quando parte cedo demais. Não há muitas palavras que consolem, pois neste caso só mesmo o tempo cura a ferida. Mas, para ti, poeta, quis deixar como um acalanto as palavras de outro poeta, que conviveu por muito tempo de perto com a indesejada das gentes.

Para Rogério Simões, Manuel Bandeira. Com um beijo meu.


OVALLE

Estavas bem mudado
Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
Para entrar com maior decôro a Eternidade.
Nada de nós te interesava agora
Calavas sereno e grave
Como no fundo foste sempre
Sob as fantasias verbais enormes
Que faziam teus amigos rir e
Punham bondade no coração dos maus.

O padre orava:
- "O côro dos anjos te receba..."
Pensei comigo:
Cantando Estrela brilhante
Lá do alto mar!...

Levamos-te cansado ao teu último endereço
Vi com prazer
Que um dia afinal seremos vizinhos
Conversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas
Quando o orvalho pingar sem ruído
E o luar for uma coisa só.



(Ah, Alex, para ti, amigo querido, saudades da sua butterfly...)

4.9.04




Fim de sonho, Início de Realização



Foram quatro dias da mais profunda felicidade. Acabou dia 02 de setembro de 2004 um projeto que veio do fundo do meu coração, fruto de muito trabalho duro, resultado dos esforços conjuntos de membros de um grupo que se organizou em torno de uma paixão comum, e que depois deste simpósio posso com firmeza chamar de grandes amigos. Foi mais do que bom. Foi um sonho. Um sonho que se tornou realidade na minha frente. Mais importante, percebi que não era um sonho só nosso, destas pessoas do Brathair.

Foi gratificante ver a seriedade de todos, desde o aluno mais novinho da graduação até o professor doutor mais graduado. Foi emocionante sentir a felicidade de todos, dezenas de alunos vieram me abraçar no último dia e dizer o quanto estavam tristes de ter acabado. Eu também estou triste que acabou. Eu nunca senti tanta irmandade numa atividade acadêmica antes. Todas as palestras lotadas, pessoas tomando nota, gravando, fazendo perguntas. Nunca vi tantos olhos brilhando juntos.

Nunca vi monitoras fazerem 'claque' para uma professora de outra universidade que elas tinham acabado de conhecer, com direito a cartaz escrito "Sue, você é gente paca!" (Risos) Alguém aí já viu garotas escreverem isto de uma professora que estava fazendo elas trabalharem feito doidas? Que meninas especiais, estas monitoras... Uma delas chegou a dizer que vai se formar na UFRJ e depois se matricular no curso de secretariado executivo da minha universidade, só para ser minha aluna de inglês... menina danada, só para me fazer chorar...

Agora, é fortalecer e construir sobre o sonho e a felicidade de todos, estabelecer uma base de estudos medievais forte neste país, descobrir de onde vimos e para onde podemos ir. Com a alma cantando, as verdes colinas de Erin combinadas com as verdes matas da Terra de Santa Cruz. Eu já falei demais, como sempre, mas agora passo a palavra a Amergin, irmão de Evir, os primeiros príncipes Milesianos a colonizar a Irlanda, muitos séculos antes de Cristo. Estes foram os primeiros versos feitos na Irlanda, esta terra de guerreiros e poetas... vieram do livro Leabhar Gabhála, ou Livro das invasões.




The Mystery (translated by Douglas Hyde)

I am the wind which breathes upon the sea,
I am the wave of the ocean,
I am the murmur of the billows,
I am the ox of the seven combats,
I am the vulture upon the rocks,
I am a beam of the sun,
I am the fairest of plants,
I am a wild boar in valour
I am a salmon in the water,
I am a lake in the plain,
I am a word of science,
I am the point of the lance in battle,
I am the god who created in the head the fire.
Who is it who throws light into the meeting on the mountain?
Who announces the ages of the moons?
Who teaches the place where couches the sun?
(If not I)

O Mistério (tradução para o português por Assunção Medeiros)

Eu sou o vento que sopra aragem sobre o mar,
Eu sou a onda do oceano,
Eu sou o murmúrio das vagas,
Eu sou o touro dos sete combates,
Eu sou o corvo sobre as pedras,
Eu sou um raio de sol,
Eu sou a mais bela das plantas,
Eu sou um javali selvagem em valor,
Eu sou o salmão na água,
Eu sou um lago na planície,
Eu sou uma palavra de ciência,
Eu sou a ponta da lança em batalha,
Eu sou o deus que criou na cabeça de fogo.
Quem é aquele que joga luz no encontro nas montanhas?
Quem anuncia as eras das luas?
Quem ensina o lugar de descanso do sol?
(A não ser eu)

31.8.04

Update no I SNECG

Meninos e meninas, a abertura deste Simpósio foi um dos momentos mais alegres do qual já fiz parte, foi muito emocionante ver aquela quantidade de gente querendo escutar a mim e a meus colegas, querendo discutir a escrita e a história do medievo, querendo se conhecer, conversar.

Todos cobertos de boa vontade um com o outro, os representantes consulares presentes todos fizeram alegres e elogiosos discursos, as primeiras palestras interessantíssimas, tudo funcionando como deveria, os pequenos problemas que surgiram causado pelo inusitado aumentodo interesse pelo evento.

E, no final da abertura, Paola nos deliciando com sua gaita galesa, o som grave/agudo do fole tomando conta do silêncio profundo da sala.

Foi PERFEITO.

30.8.04

Presentes especiais


Existem alguns presentes que a gente não esquece nunca na vida. Meu primeiro presente assim foi uma passagem de avião.

Antes que alguém estranhe, uma explicação. Já falei aqui, em vários posts, que perdi minha mãe para o câncer aos 21 anos de idade, depois de cinco anos de muita luta. O que não lembro se já mencionei aqui é que ela passou seus últimos dois anos de vida em Recife, e eu longe dela aqui no Rio. Quando ela entrou no que os médicos chamam de 'estado terminal' - quando sua alma começou a se preparar para abandonar seu corpo cansado - ela ficava uma semana de cada mês comigo aqui em casa, para as sessões de quimioterapia. Foi o período em que ficamos mais juntas, eu dormia no quarto com ela, conversávamos feito duas amigas adolescentes, até dormir.

Mas a última semana de vida ela passou no hospital em Recife onde finalmente descansou. Logo que baixou hospital, meu pai ligou para o Rio e avisou a mim e a meu irmão que ela estava com pneumonia. Para alguém no estado em que ela estava, isto era a última chamada do vôo, e eu sabia. Implorei para meu pai que me mandasse buscar. Eu PRECISAVA estar com ela. Meu pai, provavelmente querendo me poupar, pediu que eu aguardasse notícias. Meu irmão assistia a tudo calado. Quando me viu desligar o telefone e soluçar, ele perguntou se papai ia mandar a passagem. Disse que não e comecei a ligar para os parentes próximos. Ele saiu sem falar mais nada.

Dois ou três telefonemas depois, volta ele. Com aquela passagem de que falei no início deste texto, comprada com seu salário. Meio envergonhado, pois meu irmão é muito reservado, ele me põe a passagem na mão e diz: "vai, Sue, eu não tenho coragem, mas eu sei o quanto é importante para você." Importante? Dezoito anos depois, ainda tenho guardado num lugar bem protegido o canhoto do bilhete. Foi a coisa mais bonita que meu irmão podia ter feito, por mim e por ela.

Muitos anos passaram, e eu tive de substituir de muitas formas em casa a mãe que partira, e isto foi um impedimento concreto de seguir muitos sonhos. Não é uma reclamação, pois se a opção fosse novamente colocada à minha frente, novamente faria tudo o que fiz. Mas é uma constatação realista. Uma das coisas que ficou guardada na gaveta era meu gosto e alegria em escrever. Fiquei muda, por 15 anos. Até que recebi meu segundo presente inesquecível. E este, a pessoa que deu sequer sabe que me deu um presente mais precioso que todas as barras de ouro do mundo. Ele me deu minha voz de volta, com um gesto simples, mas eloquente, de enviar meu primeiro texto para publicação virtual. Um escritor por quem eu tinha o maior respeito e admiração considerou um texto meu bom o suficiente para ser publicado, me tirou de um casulo de anos e me deu incentivo para abrir estas Asas de Borboleta. Alexandre, você nem sabe, mas você me devolveu minha vida, que estava perdida de mim. Este é o segundo presente que jamais vou esquecer. Obrigada.

O terceiro presente inesquecível foi um xale. Um agradecimento pela amizade, pela lealdade, pela empatia. Um dos gestos mais bonitos que me fizeram, mas não quero falar dele, me dá vontade de chorar.

Quando eu já considerava que tinha esgotado minha quota de presentes inesquecíveis, quando eu estava fundo num buraco de tristeza, pensando até mesmo em calar novamente minha voz, que não é alta nem é bela como a de outros escritores, mas é fonte direta de força, de felicidade para mim, num mundo onde é raro encontrar fontes destas duas coisas, outro milagre aconteceu. Uma cadeia de pequenos acontecimentos me levou delicadamente pela mão até um blog que pertence a uma pessoa que entende das pequenas coisas que eu entendo: lealdade familiar; caminho diário de trabalho e de luta; vitória conquistada devagarinho, centímetro a centímetro, no meio de muito sofrimento; um coração cheio de amor e de dor. Um poeta.

Eis que um outro horizonte se abre onde não parecia haver mais nada, e o novo me devolve o antigo, e agora minha vontade é escrever, e produzir, e deixar estar. Levar esta voz até onde ela conseguir alcançar, para me sentir viva outra vez. Rogério, apesar de seu lindo presente estar escrito em meu coração, eu achei que ele se perderia na janela de comentários, e deveria estar aqui. Obrigada, poeta, pela ajuda que você nem sabe que deu. É sempre assim.

ASA DE BORBOLETA

Queria dedicar-te um canto
Nesta terna e longa viagem
Através da poesia.
Queria dar-te uma flor
Que jamais seque algum dia.
Pois ser feliz é esquecer…
A amargura do momento
E só assim a vida é sublime
Bonita ao mesmo tempo
Como este mar
Que nos separa
Nesta noite amena e calma
Silêncio! Que o meu luar
Vai beijar a tua alma.

Rogério Simões

26.8.04

PLÁGIO


Dona Glória, perigosa não é a lucidez, é a cartinha que a senhora vai receber de alguns advogados, se não corrigir imediatamente o que fez. Apague o texto ou o publique na íntegra, com créditos e link para cá.

Amigos, tem gente achando que os textos do Asa podem ser copiados e publicados - com cortes mutilantes - em seus próprios blogs. Tem gente querendo voar com minhas asas, veja só... e não é nenhuma adolescente, que poderia ter feito isto com uma certa dose de inocência, e sim uma senhora que regula de idade comigo, e deveria saber se comportar melhor.

Nossa, parece que este agosto é mesmo o mês da canalhice. Ainda bem que está acabando.

Ah, apesar de Dona Gloria não fazer a gentileza, eu faço. Quem quiser comprovar o plágio do post CONVITE, de 18 de fevereiro de 2004, vá ao blog http://pereira.gloria.blog.uol.com.br/

ADENDO AO POST: Dona Gloria já me escreveu, pedindo desculpas e retirando o post.

"Sue, Reconheço o erro...li teu texto e ele se encaixava tanto com o que eu queria que uma pessoa lesse, pq traduz bem um momento que passo. Eu anotei teu endereço ia hj te mandar um post avisando que copiei e pedindo pra linkar, errei me descupe..."

Sim, Dona Glória, está desculpada. Mas tome mais cuidado com os textos dos outros... pode usar, se linkar e não adulterar.Ela foi até boazinha, vocês não acham?