23.11.04


O Outro



Tem vezes que a paixão invade, e o que se sente é mais importante do que o que se faz. Tem vezes que a carência invade, e o que se precisa é mais importante que o que se diz. Tem vezes que o medo invade, e o que se teme é maior que o que se vê.

Mas quando o amor invade, e toma conta, e preenche todos os espaços, o medo que se sente é o de ferir a quem se ama. A carência que ameaça é a que podemos não ser aquilo que o amado precisa. A paixão desbota e cai no chão esquecida, empalidecida pela imensa alegria de saber que você está aqui.

O que surge é este outro que existe independente de mim, diferente de mim, vibrando em sintonia comigo, e cuja mera presença dá a mim satisfação espiritual maior que mulheres com mais casca apenas vislumbram na paixão física mais intensa.

Não há paixão que me dê o que você me dá. Não há medo ou carência que me impeça de dizer o que eu sempre digo e que ninguém jamais te disse: minha mente, minha alma, meu afeto, meu trabaho e minha vida estão aqui, a serviço do que para mim é mais precioso que todo o ouro de Salomão - sua felicidade.

(Hoje, olhando com cuidado o post, cheguei à conclusão que a citação tinha de ser um pouco maior, pois assim pequenina não explica tudo. Lá vai mais Corção então...)

"Somos pobres do outro; como se o sangue das veias não nos bastasse e fosse urgente trocá-lo, numa transfusão quente e viva, de coração para coração. Precisamos do outro, para o fazer comum, para a obra, sem dúvida alguma; mas muito mais para o uso comum da palavra e do trigo. Precisamos do outro para construir cidades e para ouvir um disco. Para ler livros escritos, e para ter leitores dos livros que escrevemos. Para tudo; e para nada. Para andar o mesmo caminho, à toa; para estar ao nosso lado, em silêncio. Pelo calor da proximidade, pelo conforto da compreensão. Precisamos da esmola do outro; da esmola viva, dele mesmo, como é, outro e próximo.

Quando vamos andando nas ruas, no meio da acabrunhante solidão das ruas, e vemos surgir de repente entre ombros e cabeças alheias a velha face conhecida, a boa face amiga, o tempo pára e nosso coração se aquece. É bom ver o rosto do amigo; já não estamos sós. O antigo susto que desde a infância nos persegue, medo de escuro e de solidão, se desfaz quando encontramos o amigo.

Somos pobres, fundamentalmente pobres, de carne e de espírito. Pobres como as criancinhas que morreriam de fome e de medo, se o mundo não fosse para elas um jardim cheio de mãos.

(...) Bendita seja nossa pobreza, e benditos os ombros que encontramos para nos servir de muleta!"


(Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, ps. 118/119)

1.11.04




Sonho de rosas



Hoje à noite tive um sonho. Neste sonho estava num jardim, num pequeno canteiro, com antigas roseiras. As roseiras estavam cheias de botões, mas sufocadas pelas folhas mortas, seus galhos emaranhados como por forte vento, a terra ressecada. Que dó me deu ver aquelas veneráveis roseiras abandonadas assim.

Lá fui eu, vagarosamente separei os galhos emaranhados, retirei uma a uma as folhas mortas que ainda estavam penduradas nos galhos, varri o chão, reguei, dei uma remexida na terra do canteiro, coloquei terra nova e adubada por cima. Recolhi o lixo todo, me preparava para levar tudo para um depósito qualquer, quando uma voz me avisou: “Sue, olha...”

As três roseiras – eu disse que eram três? – estavam vivas, vibrantes, desabrochadas. A mais próxima de mim, à minha direita, tinha rosas amarelas, de um amarelo tão intenso que mais pareciam douradas, umas rosas sem espinho, lisas, que abriam como pequenos cálices de ouro. As rosas pareciam me dizer “somos a Amizade”.

No canto mais distante de mim, uma roseira de rosas malva, cor de aurora. Suaves, mais miúdas que as outras, desabrochavam em pequenos cachos de manhã. Como criancinhas rosadas, estas rosas me diziam, em coro, “somos os Dons da Alma”...

No canto esquerdo, a maior roseira de todas. Ameaçadora com seus espinhos – fôra a que dera maior trabalho para limpar, como os arranhões em minhas mãos podiam atestar –, eu podia ver que, nela, o trabalho ainda não estava terminado. No entanto, sua resposta aos meus cuidados era ainda mais generosa que a das outras duas. Rosas rubras, enormes, abertas como imensos cataventos sanguíneos, me olhavam silenciosas. Não me diziam o que eram, mas quando eu perguntei seus nomes, elas apenas me perguntaram o que eu pretendia plantar no canto que estava vago, bem à minha frente.

Repentinamente percebi que havia um toco morto diante de mim. Eu olhei para a roseira-sangue, e já que ela não me dizia o que ela representava, perguntei que roseira era aquela que jazia morta ali. As flores da roseira desabrocharam ainda mais, e responderam, pesarosas: “Esta é a Paixão. Ela morreu faz pouco tempo”. Olhei para a roseira morta, e entendi a pontada que senti no peito ao olhar para aquele tronco seco. Comentei em voz alta e um pouco embargada que não tinha ferramentas para arrancar aquelas raízes profundas.

“Escolhe uma muda e deposita no côncavo que você vê em cima deste toco“, foi a resposta. Dei conta que havia uma bandeja de mudas, bem ao alcance da minha mão direita, e eram todas jovens roseiras das mais variadas cores. Intrigada, examinei todas. A que me chamou mais atenção foi uma muda que possuía uma única rosa branca.

Branca? Não exatamente. As bordas de suas pétalas tinham cores diferentes, fios coloridos em suas pontas. O centro do botão tinha este arremate em amarelo bem clarinho, e as cores iam ficando mais vivas à medida que as fieiras de pétalas se aproximavam da parte de fora, passando do laranja para o rosa-chá, para o rosa claro e o rosa profundo, chegando ao arremate de um vermelho muito parecido com a da roseira rubra. Parecia uma rosa que continha todas as outras rosas dentro dela. E o branco era de uma perfeição aveludada que me encantou, nem esverdeado nem amarelado, como algumas vezes costumam ser as rosas brancas, mas tinha o branco muito alvo das margaridas.

Silenciosamente retirei esta muda da bandeja e removi o saco plástico que envolvia suas raízes. Ajoelhei-me, depositei com cuidado aquela única rosa branca e sua pequenina roseira no côncavo da paixão morta. Uma coisa extraordinária aconteceu... a pequena muda se fundiu com a antiga raiz e começou a crescer numa velocidade espantosa, até virar uma roseira adulta. Entretanto, a rosa multicor que estava desabrochada, retraiu-se até virar novamente um botão!

Tonta, olhei para as rosas-sangue numa pergunta muda. A resposta veio num doce murmúrio interior:

“Você escolheu o Amor, que é a reunião de todas nós. Mas o amor necessita de dois. Enquanto o segundo não visitar este jardim, esta rosa permanece em botão, e nós seremos suas guardiãs. Mas você não deve deixar de regá-la com suas lágrimas, de adubá-la com seus sorrisos. E de vir nos visitar de tempos em tempos. Precisamos muito destes cuidados seus...”

- Quem SÃO as rosas rubras? perguntei entre assustada e impaciente.

“Quem guarda as amizades e o amor, e distribui os dons da alma?” foi a resposta.

- Ah, é o coração! respondi.

E acordei.

28.10.04




O Rio de Janeiro tem muitas caras. Geralmente as que aparecem na mídia são a da criminalidade e da sensualidade exacerbada. Mas o Rio também tem sua suavidade escondida, às vezes o meio do lixo.

Era assim com o Profeta Gentileza, cujo nome de batismo era José da Trino, mas que foi rebatizado na tristeza, na loucura e no fogo: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Dizem que entre estas pessoas estava a família de José. O que aconteceu neste incêncio transformou a vida deste homem, e poderia ter transformado de muitas formas. Mas a dor e a loucura, em vez de virar violência e amargor, virou... Gentileza.

Este homem, até sua morte em 1996, percorria as ruas do Centro do Rio e as barcas Rio-Niterói, dizendo palavras de gentileza e escrevendo mensagens nas pilastras dos muitos viadutos. Poucas palavras restaram, porque algum prefeito pouco gentil achou que pintar os viadutos de cinza-tristeza era melhor que preservar as palavras de José. Mas parece que o espírito do Profeta paira ainda sobre o Rio, e afeta ainda algumas pessoas.

Este recente carioca aquijá se confessou afetado. E resolveu aderir à pequena e silenciosa campanha que eu trouxe do blog da Carol, Eu acredito em você. Pois está lançada a campanha faz um tempo, pelo Profeta Gentileza, e as crianças (Carol tem 16 anos) e as borboletas - e agora um escritor! - já aderiram.

Tomara que espalhe.

27.10.04

Ouvidos atentos, braços abertos


Escrevi para um amigo, ele me deu as costas. Falei com uma amiga, ela me deu conselhos. A rejeição foi o chute no estômago no lutador caído. E de que adiantam conselhos quando se está assim? As palavras não entram, não conseguem atravessar a eterna discussão entre a mente e o coração: "Não pode!" "Mas eu quero!" "Não pode!" "Mas eu quero!!" A dor era a mesma, e também a confusão. Que fazer, que fazer, com quem falar? Paro, ando, escrevo, choro, peço colo a meu pai, me deixo atropelar por um caminhão?

Aí, duas coisas aconteceram. Escutei sua voz. Cansada, tensa, aborrecida. Mas era você. Eu não estava muda, e você não estava surdo. A certeza de que o dolorido passa consolou, ou ao menos mandou a enxaqueca embora. Conversamos, desenhamos, a sensação de estranheza, de que o mundo tinha acabado, foi sumindo durante a noite.

A segunda coisa foram os braços abertos do amigo. Acolheu (era só o que eu queria!) o que o outro amigo não quis nem ver. Escutou sem julgar, falou palavras de carinho, falou a principal: eu ENTENDO. Não eu TE entendo, mas eu entendo. Entendendo, ele me ajudou a desenrolar. Desenrolando o fio deste novelo emaranhado, descobri a Eternidade.

Amor não acaba, amor é eterno. Esta certeza que é seu chão há de ser meu teto.

24.10.04

História sem Título


"...so good on paper... so romantic... so bewildering..."

No quarto ela arrumou as malas. Malas leves, o que ela levava com ela de mais precioso não pesava muito. O gosto do primeiro beijo na estação do metrô; o som da primeira vez que ele gemera seu nome; a textura da pele dele na sua mão; o cheiro de homem limpo nas suas narinas. Além disso, algumas roupas, as fantasias que vestira para fazê-lo feliz.

"...I know nothing stays the same..."

Saía sem deixar muitas pistas, não sobrara muito de concreto, o principal estava no coração. Deixou no travesseiro alguns fios de cabelo. No chão, ao pé da cama, um chinelo virado. Na maçaneta, um sutiã. Na pia do banheiro, um montinho de pasta de dente. Na sala, alguns CDs fora da caixa, com uma risada... ela sabia que ele ficava maluco com desordem. Mas, quem sabe desta vez, ele sorriria também, entendendo que ela precisava deixar alguma marca que estivera ali, mesmo sabendo que eram marcas fáceis de apagar.

"...Down comes the rain, and washed the spider out..."

Na cozinha, um copo na bancada, com um dedo de água dentro. O avental esticado em cima da pia, para lembrar as tantas vezes que ele a abraçara por trás enquanto cozinhava. Uma colher de pau largada sobre o fogão. No ímã da geladeira, em forma de borboleta, um bilhete preso que diz apenas: "fui".

"... I believe in love, now who knows where or when, but it's coming around again..."

Parada no umbral da porta aberta, ela olhou longamente para dentro do que fora o seu refúgio nestes anos em que ela amara com o desprendimento que só os amores impossíveis têm. E descobriu, não muito surpresa, que a dor da amputação daquele amor não era menor por desejar sinceramente que ele fosse feliz sem ela.

"...itsy-bitsy spider climbs up the water sprout"

Antes de fechar a porta pela última vez, considerou a possibilidade de tirar aquela música do repeat e desligar o som. Ele sempre era tão preocupado com curto-circuitos. Considerou a possibilidade por apenas alguns segundos, depois deu de ombros. Ele chegaria logo com sua nova menina. Seria uma maneira de quebrar o gelo, explicar porque ele deixava Carly Simon tocando num apartamento vazio. Como a concordar com ela, Carly canta naquele momento...

"Don't mind if I fall apart, there's more room in a broken heart..."

Nada mais a fazer, a não ser seguir a marcação da peça: exit stage, left. Bateu a porta com um 'merda' baixinho, sabendo de antemão que aquele aperto na garganta ia levar litros de lágrimas para passar.

"It's coming around again..."

18.10.04



Um Certo Cansaço



A vida tem coisas espetaculares. As ditas coincidências que nos levam a dobrar uma esquina e dar de cara com uma alma gêmea, O gesto inesperado de apoio e carinho vindo de uma pessoa com quem não se contava. Um dia que nasce esplendoroso de dentro de uma noite chuvosa. A precisão quase geométrica das pétalas de uma rosa. Tem muita coisa que faz com que se olhe em volta e diga: Deus fez tudo muito bem feitinho...

Mas tem gente que parece ter como ocupação profissional transformar o bonito em feio, o milagre em corriqueiro, a vida em tédio. Alguns por falta de um olhar mais caridoso para si e para o mundo, alguns atormentados por tarefas prementes desta nossa época agitada, outros simplesmente porque sofrem de azedume crônico da alma. Entretanto, há pessoas demais assim, e as almas mais líricas sofrem com os constantes baldes de água fria a lhe jogarem no rosto.

Hoje, se fosse possível, gostaria que todos que lessem isto tentassem olhar longamente e em silêncio para algo bem bonito - pode ser esta rosa aí em cima - e deixassem que a mensagem que está oculta nesta beleza se revelasse diantede seus olhos.

"The most incredible things about miracles is that they happen. A few clouds in heaven do come together into the staring shape of one human eye. A tree does stand up in the landscape of a doubtful journey in the exact shape of a note of interrogation. I have seen both these things myself within the las few days. Nelson does die in the instant of victory; and a man named Williams does quite accidentally murder a man named Williamson; it sounds like a sort of infanticide. In short, there is in life a sort of elfin coincidence which people reckoning on the prosaic may perpetually miss. As it has been well expressed in the paradox of Poe, wisdom should reckon on the unforeseen." (G.K. Chesterton - Father Brown Stories - Penguin Popular Classics - p. 07)

"A coisa mais incrível a respeito dos milagres é que eles acontecem. Algumas nuvens no céu se juntam, sim, na forma de um olho humano a encarar. Uma árvore se destaca, sim, da paisagem de uma jornada dúbia, na forma exata de um ponto de interrogação. Eu mesmo vi estas duas coisas nos últimos dias. Nelson realmente morre no instante da vitória; e um homem chamado Williams, por puro acidente, pode, sim, assassinar um homem chamado Williamson ("Filho de William"); soa como uma espécie de infanticídio. Em suma, existe na vida uma espécie de coincidência mágica que as pessoas que raciocinam com o prosaico perpetuamente ignoram. Como já foi bem expresso no paradoxo de Poe, a sabedoria tem de levar em conta o imprevisto." (tradução minha)

11.10.04


Mais um Adeus



Recife, inverno de 1985. A mocinha que eu fui ficou sabendo que um dos escritores que adorava estaria numa livraria o Shopping Recife autografando seus livros. Entusiasmada mas tímida, pegou dois deles e levou dentro da bolsa. Não sabia se teria coragem de se aproximar de tão exaltada figura e pedir o carinho de ter uma dedicatória pessoal para provar que ele era de fato seu amigo querido. Não estranhem ela nunca o ter visto antes, o amor através dos livros que os escritores e seus leitores trocam é forte e verdadeiro. Tanto quanto o leitor precisa da visão especial do escritor para conhecer melhor o mundo, o escritor precisa daqueles corações e daquelas mentes vibrando em harmonia com ele e dizendo, "Sim, é isso mesmo! Como não percebi antes?"

A Sue-mocinha então selecionou os dois livros deste amigo, e foi para o shopping, ainda sem saber se teria coragem de se aproximar dele. Vai que a imensa simpatia e doçura presente nos livros se mostrasse apenas construção do talento dele de escritor, e o homem não fosse da mesma estatura?

O Shopping. Lá estava ele. De longe percebeu um homem maduro, mais velho um pouco que seu pai, mas ainda bonitão. Parecia simpático. Foi-se aproximando devagarinho, e teve a grata surpresa de ser acolhida com um enorme sorriso. O grande escritor não se esquivou de mineiramente trocar um dedinho de prosa com a menina, e ainda escreveu uma dedicatória que fez o coração dela inchar de alegria: "A Sue esta lembrança afetuosa com um abraço amigo do Fernando Sabino - Recife, 19/06/85"

O livro, Faca de Dois Gumes, foi relido aquela noite com uma nova emoção. Agora ela sabia um pouquinho mais deste livro, sabia que ele tinha sido escrito por um homem bom, com entusiasmo de menino e modos de cavalheiro. Ela já tinha vontade de escrever bem como ele. Agora passou a ter vontade de ser uma pessoa assim.

Quase 20 anos depois, o telejornal anuncia que o meu amigo morreu aos 81 anos, depois de dois anos de luta contra um câncer. Será que alguém vai entender as lágrimas que me escorrem dos olhos enquanto escrevo isto? Será que vocês vão entender que Fernando Sabino - e Manoel Bandeira, e Carlos Drummond e Clarice Lispector e tantos outros - é parte da minha alma?

Hoje o mineirinho contador de causo morreu. Esse mundo ficou um pouquinho mais vazio e mais triste. E o outro mundo ficou um pouquinho mais alegre. Diz o noticiário...



Velório de Sabino é no S. João Batista
O Globo
GloboNews TV

RIO - O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Alguns amigos como o cartunista e escritor Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo estão no local. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição "nasci homem, morri menino".




O que eu digo é que este menino tocou fundo meu coração, e agora o Asa está de luto. Não quero falar mais, deixo com vocês Fernando Sabino...





A Última Crônica - Fernando Sabino



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.


A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

30.9.04



Caixas



Pessoas sensíveis demais às vezes procuram proteção fechando suas almas numa caixa muito bem trancada, à qual ninguém mais tem acesso. Pode ser uma caixa rica ou pobre, forrada de jornal ou de almofadas aveludadas. Pode ser feita do mais perfumado sândalo entalhado ou do mais duro aço. Não importa, a realidade é que quem está lá dentro sofre da mais profunda solidão.

Foi de dentro de uma caixa destas, feita de resistente jacarandá e forrada de livros, que eu vi chegar o início da minha adolescência. Eu fui uma pré-adolescente trancada dentro de mim mesma, e eu não sabia sair. Mas Deus nunca me desampara, e Ele mandou um emissário com a chave que eu tinha perdido.

Um anjo, Stella era um anjo caído. É engraçado como este nome - Estrela - volta e meia surge importante na minha vida, geralmente quando estou chegando em alguma encruzilhada do meu caminho. Pois, "Tia Stella" era uma amiga de minha mãe formada em educação física que reunia pequenos grupos de amigas para aulas de ginástica.

Minha mãe, sempre preocupada com minha tendência para engordar - o que para ela era a pior herança genética que havia me legado - , e diante da minha recusa categórica de ir para uma academia, convenceu-me a participar de algumas aulas da Tia Stella.

Ela era uma mulher doce e tranquila por fora, que lutava contra seus demônios interiores. Tinha sua própria caixa, só que forrada de espinhos. Mesmo assim, teve compaixão daquela menina emudecida. Com uma mistura de carinho, paciência, exercícios físicos, palavras de incentivo, conselhos e aulas de expressão corporal, devagarinho abriu a tampa da minha caixa, estendeu a mão e me ajudou a sair.

Não consigo lembrar de maior gesto de amor que alguém além de minha mãe tenha tido comigo. Se hoje eu escrevo, e algumas pessoas agradecem dizendo que minhas palavras as ajudam, eu tenho de responder que os agradecimentos se devem em grande parte à Stella. Fazem mais de 25 anos que não a vejo, e soube que ela perdeu algumas grandes batalhas contra aqueles demônios, mas venceu algumas também. Espero que tenha conseguido trocar o forro de espinhos de sua caixa por um suave cetim. Eu rezo por isto, porque - se minha mãe me trouxe a este mundo e me fez a pessoa que sou - a Stella me apresentou à vida e me deu as primeiras ferramentas para conquistar minha autonomia. E eu a amo muito, e sou muito agradecida, e serei para sempre.

A minha caixa continua aqui, a tampa aberta, muitos pequenos tesouros conquistados ao longo destes 40 anos carinhosamente arrumados dentro dela. Ainda me refugio lá dentro em momentos de muita dor. Só que hoje a chave está segura bem firme na minha mão.

Então, deixo aqui o convite para aqueles que amo e sei que têm suas caixas, alguns deles mal tendo começado as tentativas de sair delas: venham, queridos venham para fora, vale a pena. O mundo é terrivelmente belo e assustador, cheio de aventura e de frieza, de alegria mesclada com perda. Mas há muito tempo eu aprendi que não há coisa alguma tão assustadora que não possa ser enfrentada, se há uma mão estendida esperando pela nossa.


Minha mão está aqui.



Hide In Your Shell

Supertramp

Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride
What will you gain making your life a little longer?
Heaven or Hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?
Shelter behind painting your mind and playing joker

Too Frightening to listen to a stranger
Too Beautiful to put your pride in danger
You're waiting for someone to understand you
But you've got demons in your closet
And you're screaming out to stop it
Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you scramble for

Don't let the tears linger on inside now
Cos it's sure time you gained control
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know
Well, let me show you the nearest signpost
To get your heart back on the road
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know.

All through the night as you lie awake and hold yourself so tight
What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
How would it be if you could see the world through my eyes?

Too Frightening - the fire's getting colder
Too Beautiful- to think you're getting older
You're looking for someone to give an answer.
But what you see is just an illusion
You're surrounded by confusion
Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you can scramble for

Don't let the tears... just let me know
I wanna know... I wanna know you...
Well let me know you
I wanna feel you
I wanna touch you
Please let me near you
Can you hear what I'm saying?
Well I'm hoping, I'm dreamin', I'm prayin'
I know what you're thinkin'
See what you're seein'
Never ever let yourself go

Hold yourself down, hold yourself down
Why d'ya hold yourself down?
Why don't you listen, you can
Trust me,
There's a place I know the way to
A place there is need to feel you
Feel that you're alone
Hear me
I know exactly what you're feelin'
Cos all your troubles are within you
Please begin to see that I'm just bleeding to
Love me, love you
Loving is the way to
Help me, help you -
Why must we be so cool, oh so cool?
Oh, we're such damn fools...

19.9.04


Oh, boy!




Bom, muita gente melhor que eu já falou bastante do livro, inclusive o próprio autor. Mas é necessário que eu faça algum tipo de homenagem a este talentoso amigo.

Fabio, lá vai: um conto de presente

FDR chega ao Paraíso

Finalmente, depois de uma longa vida de sucessos e de negar com veemência, durante toda ela, a existência de qualquer coisa remotamente parecida com Deus, Fabio Danesi morre. Ainda meio desorientado e sem consciência completa de sua situação, por estar dormindo ao falecer, Danesi chega aos Portais do Paraíso. Na entrada, um coro de anjos, São Pedro e Fred Astaire o aguardam.

- Benvindo, Filho! São Pedro sorri, bondosamente.
- Welcome, my boy! Fred Astaire sorri, alegre.
- Aleluia! Cantam os anjos.

Fabio observa aquilo por um instante. Coçando a cabeça, diz para si mesmo:

- Eu bem que pensei que não devia ter tomado tanto vinho hoje à noite, que sonho esquisito!

- Não, não, não é sonho my dear chap. Você morreu e está no Paraíso. Vamos entrar, Deus decretou feriado e tem uma festa à sua espera. Fred Astaire estende a mão num cumprimento.

- Deus? Estou ficando gagá, só pode ser. Deus não existe. Nossa, o que tinha naquele vinho!? Responde Danesi, apertando a mão do dançarino, mesmo achando tudo aquilo alucinação, pois ele é um cavalheiro.

- Ah, sim. Sobre este probleminha, senhor Rossi - retruca São Pedro. O Senhor Todo Poderoso não só existe, como é um grande fã seu. Ele o está aguardando, quer discutir alguns pontos de sua obra.

Fabio apenas levanta as sobrancelhas, incrédulo.

- Discutir MINHA obra com Deus? E que tal se eu quiser discutir com Deus a obra DELE? partindo, é claro, do princípio que o tal Ele exista.

- Bem, old fellow, este é um assunto meio espinhoso. Deus é um artista, ele não tem muita simpatia por críticos. Qual o autor que tem, não é verdade?

- Nenhum que eu conheça, Mr. Astaire. Nem mesmo eu, para falar a verdade.

- Fred, m'boy, e eu espero que me permita chamá-lo Fabio? Oh, claro, meu caro. O Senhor não que r criticar sua obra, apenas conversar sobre ela.

- Ora, porque não? Tudo neste sonho está tão estranho, não me espanta ter Fred Astaire me chamando de Fabio e Deus querendo conversar sobre minha obra. O escritor sorri seu sorriso doce de menino, que faz com que os anjos soltem arpejos de felicidade

- Caro Fabio, encare se quiser como um sonho. Depois de algumas semanas aqui, você vai começar a se acostumar com a idéia. Agora, shall we? As celebrações estão esperando apenas por você para começar. Astaire sorri de volta e indica os Portais do Paraíso, abertos e iluminados por uma luz intensa.

- Hummm... férias no paraíso, eh? Isso dava um conto interessante. Fred, por acaso tem com você papel e caneta?

São Pedro sorri, benevolente.
Fred Astaire sorri, divertido.
Aleluia! Cantam os anjos.

10.9.04


Ruins


Reforma



Primeiro vem o quebra-quebra. Devagarinho as paredes vão-se abrindo em janelas e da escuridão faz-se a luz. Mas a luz nos mostra que há centenas de pequenos defeitos a ser corrigidos, milhares de mínimas falhas para consertar. Pega o formão, respira fundo, bate-bate, fura-fura, derruba, joga fora o entulho.

Depois do sofrimento começa a construção. Às vezes a construção é lenta, parece que nunca vai acabar. Faz a argamassa, espalha em cada tijolo, monta o complexo quebra-cabeça, deixa secar. Enche os buracos, alisa a massa, faz a parede crescer. Dá forma ao conteúdo novo, faz um novo espaço nascer.

De repente, surpresos, nos pegamos colorindo uma vida que estava cinza, ordem e beleza brotando do caos, olhamos em volta perplexos e nos perguntamos: "Mas fui EU que fiz tudo isto?"

Para Maurício, com um beijo.