24.3.05
21.3.05

então porque você está me irritando? ele disse assim num misto de quase desligar na cara dela e desculpa embutido na frase despropositada. vendo o nervoso dele em tentar conter o ódio não direcionado a ela - que acabara de ser válvula de escape sem ter culpa da esporrada - e a espontaneidade da explosão, não sabia de ria ou se ofendia. o resultado foi uma leve alfinetada - comum a quem é ágil com as mãos - costurando um assunto no outro, como que numa colagem. emendou livros, sites, pessoas e envelopes numa alinhavada só. quando desligou o telefone, ela ria. não gargalhadas, mas aquele leve sorriso estático onde não há a necessidade de mostrar os dentes. então, por que você está me irritando? pra te amar melhor, meu amor, pra te amar melhor." (Crib Tanaka in Paralelos: 17 Contos da Nova Literatura, Editora Agir)
O filme desenrolava cada vez mais complexo, com tramas e subtramas, mas tudo parecia para ela cada vez mais simples. Sim raramente é para sempre, Não raramente volta atrás. O medo que dê errado compete ferozmente com a vontade de que dê certo, numa versão psicanalítica de Jacó e o Anjo. E ela não conseguia mais discernir se era um filme de ação, um drama ou uma comédia pastelão. O jeito era aguardar.
Quando a última cena apareceu na tela - a mocinha sentada só, numa sala de cinema - e as luzes se acenderam, ela percebeu que estava também só nesta sua sala de cinema. Ao olhar para trás, distraída, escutou o grito "Corta!" vindo de um homem que olhava para ela no escuro, por trás de uma câmera.
17.3.05
Mulheres guerreiras
"É quase tempestade e me mantenho aqui, com o olhar fixo no horizonte cinza, esperando o momento em que será possível acreditar em tudo aquilo que realmente existe. Alguém me disse enquanto o céu estava claro que acabei por me trancar num mundo que eu mesma criei e no qual poucas pessoas permito entrar e eu não acreditei. Tenho uma certa dificuldade em relação à crença naquilo que não me agrada. Mas o fato é que esse alguém tem toda razão e já me sinto vitoriosa por reconhecer isso. Me manter forte não é uma obrigação, mas uma conseqüência e o que preciso agora é colocar em prática os planos que há anos venho acumulando, que se tornaram uma espécie de motivação mas que também, como eu, precisam se transformar e deixar de ser apenas planos. Eu quero a espada em minhas mãos."
Minha querida Roberta Febran escreveu o texto acima. Ela sabe muito bem o que é ser uma mulher guerreira, presa em uma luta que muitas vezes não foi escolha sua, e incapaz de parar um minuto sequer para respirar algum ar que não tenha cheiro de sangue, suor e medo. é uma irmandade sofrida e silenciosa, esta das mulheres guerreiras. Elas se conhecem, se entendem profundamente, mas só o que têm tempo de trocar é um olhar de compreensão e um "é..." pensativo, antes que os atacantes voltem a tomar toda a sua atenção.
Os atacantes são muitos: falta de grana, falta de afeto, falta de lealdade, insuficiências diversas e acidentes dolorosos vários. Às vezes é também o abandono - do pai, do marido, dos filhos, do governo - que as força a pegar em armas. o problema é que, quando se pega uma arma, raramente nos permitem colocá-la de volta na sua bainha.
Eu tenho lamentado muito toda esta luta. Não paro de lutar, porque não tenho intenção de me deixar degolar pelas circunstâncias. Mas eu sonho com uma vida mais delicada, holywoodiana, com robes de cetim e boás de plumas, e mules com pompons e poodles cor de rosa que cabem na palma da mão. Almofadas de cetim, cabelos sempre bem penteados, luvas de pelica, todo o tempo do mundo, unhas sempre bem feitas, nenhuma louça para lavar, nenhum desencanto, nenhum sofrimento. Eu sonho com a vida de comercial Mollico, com a vida chocolate Godiva.
Uma vida chapada, de vitrine, eu sei, é a miragem que seduz quem tem muito pouco tempo para sonhar. Eu queria reconquistar meu direito ao sonho, queria não ter de viver na prática esta tortura tão Laranja Mecânica de ter de manter os olhos sempre abertos. Fechar os olhos por um instante, recostar a cabeça, relaxar... ó luxúria das luxúrias...
Mas, como disse muito bem uma outra amiga, guerreira mais experimentada, mãe que criou praticamente sozinha quatro filhos e que salvou o ex-marido da falência três vezes com seu próprio trabalho: "Esquece, Sue. Tem gente que nasceu para a boa vida, nós nascemos para quebrar pedra."
Oh, well. De volta à enxada. Sem nunca embainhar a espada.
16.3.05
Divagações Sobre o Amor II
Que coisa é a vida... passei a madrugada inteira conversando sobre amor, e uma das pessoas que marquei como sendo alguém que eu muito amei - e amo - foi você. Lembrei que nunca nos vimos, mas que os efeitos da sua passagem pela minha vida ainda são tão fortes que fiz uma rede de carinho em torno de mim com pessoas que eram suas, e agora são minhas também.
E eis que me lembro que hoje é seu aniversário, e começo a pensar no que escrever, e a Cris me manda uma linda mensagem, pois ela também vai sempre amar você. E mais uma vez eu tenho a certeza que amar forte, e amar para sempre, é o que nos torna próximos de Deus. E eu sinto que você está cada dia mais pertinho Dele. Só pode estar, pois sua presença amorosa continua a nos abençoar aqui embaixo, no meio de tanta luta e sofrimento.
Feliz aniversário de dois anos na vida eterna, meu anjo torto, meu amado Alex.
13.3.05
Divagações sobre o amor
Já me falaram de tudo sobre o amor, e eu já li um outro tanto de gente que sabe ou acha que sabe o que o amor é. Engraçado, eu já falei um bocado que amo, como amo, com que intensidade amo, mas nunca falei sobre o amor, sobre como ele se manifesta para mim.
Amor? Eu poderia citar inúmeras poesias mais bonitas, mais fortes. Mas no seu álbum Lover's Rock, a Sade acertou em cheio no que eu considero que seja amor de verdade. Amor é pensar no outro e não em si, amor é cuidar, amor é enxugar a lágrima e apertar a mão, segurar firme, mesmo que todas as tempestades despejem fúria à sua volta. Segurar e não largar. Só o amor verdadeiro dá forças para isto; quando o amor é verdadeiro, este cuidado de um com o outro é tranquilo, automático, sem esforço.
Ah, queridos, é uma bênção e um privilégio poder amar assim.

10.3.05

Águas de Março
É... o mês de março tem tido um peso grande na minha vida, grande e triste, e acho que nunca mais vou conseguir encará-lo com alegria. As águas que levam embora o verão levaram mais coisas embora, e pessoas.
Não me entristeço em demasia, contudo; a água levou, mas também lavou. A cada problema, a cada tempestade, a cada luta, a cada tristeza a alegria interna se torna maior e mais sólida. E minha alegria interior tem-se manifestado com muita força justamente quando quem amo está mais fraco, mais triste. Aí ela se derrama sobre o coração ferido ao meu lado, e minha fraqueza se torna força, e minha dor se apaga de minha consciência, e curar a dor dele é minha alegria.
Os celtas entravam no campo de batalha nus e cantando, sorrindo ferozmente, e eram o pavor de seus inimigos.
Eu, portanto, já aviso aos navegantes: minha alma e meu coração já foram desnudados, o sorriso feroz está no rosto, e tudo o que se ouve à minha volta é o barulho da pedra afiando a espada. Os que querem ferir ou roubar a alegria daquele que amo que comecem a correr se eu começar a cantar.
24.2.05
Stella, Alfredo, Aninha, amigos todos:
Da mesma forma que há tristezas grandes demais para palavras, onde o silêncio é a única resposta, da mesma forma que há portas que se fecham que não se reabrem jamais, há alegrias que não podem ser descritas, há novos caminhos que se descortinam e mobilizam todo nosso ser por um instante.
Não abandono o Asa, apenas a borboleta dorme um segundo, pousada sobre um livro de poesias, enquanto a Assunção corre aqui e ali na vida real, coração e mente ocupadíssimos.
Tudo está muito bem, e vai ficar melhor!
Beijos estalados nas bochechas dos amigos, uma risada graaannndeee e feliz, e tchau!
Daqui a pouco volto!
27.1.05
Mergulho no inconsciente
Fecho os olhos. No espaço infinito interior, posiciono meu corpo mental num trampolim que aponta para o céu vazio. No espaço de três batidas de coração, percorro o trampolim e me lanço no nada. Uma respiração bem lenta... as nuvens muito brancas passam velozmente por mim enquanto caio, mas não há vento nem atrito, eu caio rápida e suavemente. Mais uma respiração lenta e profunda... meu corpo mental ensaia rodar no ar, fazer arabescos. Estou no reino onde tudo é possível, onde não há os habituais limites do físico. A queda se torna cada vez mais veloz, e mais suave.
Cada vez menos percebo meu corpo físico. Agora a realidade é a queda, o vôo. Uma terceira respiração, mais lenta e profunda que as outras duas... as nuvens brancas se partem, e posso ver lá embaixo, ainda pequenina, uma enseada de mar muito limpo e azul, uma praia de areia muito branca, e na beira da areia escadas que levam a uma casa. Minha casa. Minha praia, meu mar. Eu. Voltei.
Entro no mar como uma flecha, e me sinto cercada de bolhas que me pinicam gostoso... deve ser esta a sensação de mergulhar numa taça de champagne. A água é cristalina, e o céu ensolarado me permite ver meus alegres golfinhos nadando a meu lado. É uma escolta, porque meus alegres guardiães sabem que nas profundezas mais escuras deste mar existem tubarões que me enchem de temor. Mas aqui, na minha enseada, no meu lugar especial, eles não chegam, porque minha escolta da alegria não permite. Chego na praia, caminho pela areia úmida ao encontro da escadaria, e no pé dela dois seres me aguardam, um lobo grande e solene, uma pantera de olhos amarelos.
Um afago na cabeça de cada um, um olhar de boas vindas. Subimos juntos os degraus. Uns 50 deles, porque a casa fica no alto, e de sua janela posso ver ao mesmo tempo a enseada e o horizonte. Finalmente chego até a porta, com um suspiro cruzo o umbral, e a roupa de banho molhada dá lugar a uma túnica leve e folgada. Ao meu lado não estão mais um lobo e uma pantera, mas meu cãozinho Buggie e minha gatinha Dora, meus pequenos companheiros internos, familiares, queridos, cheios de vida e saúde, tão diferentes dos corpos sem vida de que eu me despedi fazem já alguns anos. Lá fora na praia eles são meus guarda-costas, as feras que me protegem de feras muito piores que trafegam pela mata, mas aqui são apenas meus filhinhos peludos, que me fazem companhia no meu lugar.
E o meu lugar é um enorme quarto, amplo, claro, com algumas portas que se abrem para outros lugares, diferentes, e neste quarto há uma imensa cama macia, onde muitas vezes vou apenas para repousar a mente cansada. Hoje, no entanto, apesar do cansaço, não vim para repousar, mas para averiguar a chegada de um novo companheiro.
Ao chegar à beira da cama, eu o vejo. Junto dele, cuidando do recém-chegado, o meu outro cãozinho, Ly – que em chinês quer dizer sorte –, amável cãozinho que no fim de sua vida foi pai adotivo de Dora e deste que chega agora... meu gatinho Tetê, ainda fraco da viagem, mas sem as marcas da doença que o derrubou ainda tão novo... nada de icterícia amarelando sua pele, nada de pêlo sem brilho, ele está deitado, ainda cansado da jornada, mas recuperando rapidamente o viço perdido, principalmente com os cuidados do pai cão, eles que sempre se gostaram tanto.
Sento no meio da cama, de pernas cruzadas, e meus quatro amigos se ajeitam em torno de mim. Eu sei que quando tornar a abrir os olhos para o mundo fora de mim, quando tiver de sair de meu mundo particular, a saudade deles vai me fazer doer o coração, mas agora é só a felicidade que qualquer bicho de estimação sente quando a dona chega em casa, agora é a alegria comum, corriqueira e preciosa dos ronronados, das lambidas afetuosas.
Dorinha, sempre a mais afoita dos dois irmãos felinos, abusa da paciência do gato e tem de ser repreendida, mas é uma repreensão cheia de riso. O Ly, como sempre fez, chega bem pertinho de minha coxa e mostra a barriga para afagos. Buggie, ciente de sua dignidade, deita um pouco ao largo da confusão, da maneira que sempre gostou: patas de frente paralelas diante dele, patas de trás esticadas ao máximo para trás, a barriga toda encostada no edredon fresquinho. Mas, apesar de tentar manter a aparência de lorde, a boca é toda sorrisos, e a língua aparece num arfar de felicidade. Mamãe está em casa.
E mamãe deita na cama, e deixa o amor simples dos seus bichinhos embalar seu sono. Amanhã de manhã a realidade se impõe. Mas a madrugada é muito mais amiga do sonho que da realidade.
17.1.05
Obrigada pela visita e pelo comentário. Foi um momento de prazer verdadeiro no meio de uma semana de puro desgosto. Obrigada mesmo.
Eu tenho estado profundamente mergulhada em mim mesma, e muito pouco na Internet. Seu blog e seus escritos continuam sendo uma referência para mim, de integridade, de coerência, de estrutura - parece maluquice minha falar disto logo depois de ler seu post sobre ser livre, mas é verdade: para ser livre é preciso ser autônomo, e para ser autônomo, é necessária uma forte estrutura mental e emocional.
Seu post sobre liberdade parece que foi escrito como recado para mim, como muita coisa que você escreve, menino. É alfinetada das mais salutares, e meu caso é muito parecido com o seu, apesar da incongruência de eu ser professora universitária, parte desta tribo que você despreza (coberto de razão).
Eu estou no mesmo lugar que você, no meio do Pampa em cima de um caixote. Mas o que você vê como infinitas possibilidades, eu enxergo como total desolação.
Mas não deixo de lutar para mudar minha maneira de ver as coisas.
Quanto a linkar você, estou mesmo precisando reformar meus links, adicionar muitos, não só o seu, e tirar alguns. Se a poeira baixar um pouquinho, vou tratar disto logo.
Um beijo carinhoso da sua admiradora
10.1.05

Tsunamis, Tempestades e Outros Desastres
Sina. Palavra pequena que significa tanta coisa diferente. Irmã menos famosa do Destino, muita gente sequer acredita que ela exista. Quem acredita, geralmente pensa que ela é mesquinha e pequena, inimiga da humanidade.
Quando nos deparamos com os grandes desastres – como o tornado que desabrigou tantos em Santa Catarina e o tsunami que matou centenas de milhares na Ásia – nos perguntamos sempre porque. Quem ou o que ordena que uma onda leve tantas pessoas, casas, cause tanta destruição. Será gesto da ira Divina? Mais uma das travessuras do Destino e de sua malvada irmã Sina? Que sina é esta, Pai Eterno, que faz com que tantas pessoas transformem suas férias singelas na praia num inferno de dor e sofrimento?
Eu não acho que os acontecimentos sejam ordenados assim, de maneira tão burocrática. Não acredito que um Destino brincalhão nos pregue peças de mau gosto deste tamanho, por diversão. Verdadeiramente penso que estamos neste mundo para vencê-lo, como se vence uma prova de olimpíada ou uma batalha. Os obstáculos estão em toda a parte, pequenos, grandes, obstaculozinhos irritantes ou sofrimentos enormes como rochedos pontiagudos nos quais caímos. E um Deus mais amoroso e gentil que o malicioso Destino nos estende sempre a mão e diz: “Eu ajudo você a passar por isto, vem...”.
Nesta hora, a Sina não é maldosa, é a penas o conjunto de treinamentos que a vida nos manda para nos ensinar a ser mais fortes, mais confiantes nesta Mão estendida. A ver que os bons momentos da vida têm de ser guardados no fundo do coração, como a namorada que amarra as cartas do amado em fita de seda e as guarda em uma caixa perfumada de sachês e flores secas, como o tesouro de amor que são. Porque são estes bons momentos, é a Esperança na Beleza, na Alegria, na Bondade, na Felicidade que são nossas armas para vencermos as batalhas cotidianas e as especiais, que nos atingem como um murro quando inocentemente dobramos a esquina cantarolando.
Eu tenho uma sina. Uma sina que me rasga em tiras por dentro, mas que é uma sina bonita e especial, um verdadeiro presente da vida. Deus me manda os perdidos, os doentes, os solitários, os que precisam de amor. E a mim é forçoso que eu forneça a eles o que lhes falta: cuidado, atenção, remédio, carinho, o amor incondicional que cura e consola.
Para conseguir fazer isto, recebi de Deus a mãe mais amorosa que uma pessoa poderia ter, uma mãe que cuidava de mim como um antiquário cuida de um vaso Sèvres (estou boa de metáforas hoje... acho que porque não quero pensar reto demais, sob o risco de não conseguir escrever isto). Quando tinha 16 anos, esta mãe adoeceu. Câncer no seio esquerdo. Cinco anos de tratamento. Metástase no fígado. Cinco meses de agonia. Morte. Minha mãe me ensinou a cuidar e a morrer, e foi também o primeiro ser de quem cuidei em sua fase terminal.
Tarefas das mais diversas, difíceis, todas: fazer de conta que eu não estava perdida no meio de uma tempestade, porque minha mãe estava sem chão, e não podia mais ser o MEU chão; levá-la às sessões de quimioterapia, e ver como aquela medicação vagarosamente a maltratava, arrancando seus cabelos, maltratando sua vaidade, debilitando seu sistema imunológico; cuidar dela na sua última semana de vida no hospital, banhando, alimentando (enquanto ela comeu), limpando sua urina e suas fezes; servindo de auxiliar de cirurgia, quando o seu médico resolveu que tentaria aliviar sua respiração entrecortada fazendo uma punção abdominal para tirar o líquido do fígado que se desfazia lentamente com o tumor.
Tudo isto, que escrito parece pavorosamente duro, eu fazia movida pela mais premente necessidade de mostrar a ela que eu a amava, que eu não permitiria que ela passasse por aquilo sozinha, que eu queria que ela soubesse o quanto eu era GRATA pelo amor e cuidado que ela teve comigo, pelas coisas bonitas que ela me ensinou. Mas tudo isto tem um custo pessoal alto. Depois que minha mãe morreu, o sofrimento todo que estava engarrafado explodiu numa úlcera gástrica e em crises de choro que vinham de repente, e me sacodiam como uma boneca de pano, e me deixavam prostrada quando partiam.
Esta é a sina: dar de mim de tal forma a quem necessita, que sofro de ‘anemia da alma’. A cada parente doente, a cada bichinho que parte (já me despedi de quatro, todos muito amados), a cada perda, a energia que se esvaiu de mim retorna muito lentamente, e durante um tempo fico oca, inerte, entregue a um sofrimento contra o qual nada posso fazer. Não é possível reagir, só deixar o tsunami passar, e depois reconstruir o que ele botou abaixo. Não é só destruição, é também uma limpeza e uma renovação, mas que dói como se me arrancassem a pele.
Desta vez foi mais um bichinho: meu gato Tetê, que tirei das ruas quando ainda cabia na palma de minha mão, e de quem cuidei e em quem depositei todo meu afeto por seis anos. Um belo dia no início de dezembro, a surpresa: o gatinho que tiramos de casa um pouquinho apático, com um comportamento esquisito, ao chegar na clínica era um gato com uma patologia hepática grave, patologia que durante um mês comeu metade de sua massa corpórea e finalmente o levou domingo de tarde, nove de janeiro.
Lá vou eu, a mesma rotina de minha mãe: vigiar o soro, dar alimento, lavar, cuidar, fazer punção abdominal, ajudar a respirar, levar para a clínica, ver o rosto da veterinária ficar mais e mais grave. E assistir de perto mais uma batalha perdida para a morte.
Aqui, uma pausa. Deve ter gente lendo isto que vai ficar escandalizada, achando que eu estou equiparando o sofrimento de perder minha mãe com o sofrimento de perder um bicho de estimação. Não estou. Estou dizendo que o esforço desprendido no cuidar é o mesmo, as noites sem dormir são as mesmas, as lágrimas caem do mesmo jeito, e quando eles partem, a Sue está oca, e dentro dela está apenas o fantasma de uma dor que ela presenciou de muito perto, e que dentro dela ainda não se dissipou.
Peço então desculpas aos amigos que vêm aqui saber da Sue, ela está perdida numa praia deserta em algum lugar, esperando a tempestade passar para que ela possa começar a retirar os entulhos. Não sei com que freqüência virei aqui, nem o que vou escrever. Porque hoje, só o que sou é um gatinho moribundo lutando para respirar.


